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A geração Z, de jovens com até 30 anos, que nasceu e cresceu em um mundo que pulsa ao ritmo das redes, vem dissolvendo tabus, agitando bandeiras em prol da diversidade e sublinhando no glossário moderno a ideia de que ambição é bom, desde que não se sobreponha ao bem-estar. Nesse caldo, não cabe seguir a vida sob moldura muito rígida, em que trocar alianças e ter filhos seria um percurso inescapável. Tudo isso junto e misturado resulta em uma turma de mente mais arejada, sem dúvida. Mas, como nada é tão simples assim, também ela expõe suas contradições, sobretudo quando postos lado a lado homens e mulheres desse estrato populacional que tanto atiça a curiosidade por representar o novo. E é aí que salta aos olhos uma surpresa: a ala masculina revela-se perdida, contrariada e até indignada, quem diria, com a modernidade em forma de empoderamento feminino. Eles tentam se entender em uma era na qual elas, depois da eclosão dos movimentos dos anos 1960, conseguiram cavar espaço, livres das amarras sexistas.

É natural que, enquanto as mulheres redefinem seu papel, os homens ponham a se ver no espelho. Só que a história não termina aí: segundo uma nova pesquisa, que examinou com lupa o pelotão Z, seus representantes masculinos não apenas expõem um pensamento de tintas machistas, revivendo um ideário pouco afeito ao figurino contemporâneo, como chegam a superar seus pais e avós nas nuances do atraso. Segundo o levantamento, feito pelo King’s College de Londres em parceria com o Instituto Ipsos, que investigou o tópico em 29 países, o Brasil incluído, 31% concordam, veja só, que a esposa deve “sempre obedecer ao marido”, quinhão incrivelmente elevado e superior ao das demais faixas etárias, na casa dos 20%. Na mesma antiquada toada, em tom inaceitável, 24% dizem que as mulheres devem “evitar parecer independentes” e 59% afirmam haver “cobrança excessiva” para que os homens apoiem a igualdade de gêneros, um grupo que, entre brasileiros, dispara para 72% (veja no quadro). Para eles, os esforços em prol da equidade “foram longe demais”.

arte machismo

Não que a juventude de hoje se ponha de costas para as sacudidas que conduzem as sociedades na trilha do progresso: 41% dos entrevistados, por exemplo, canalizam sua admiração a mulheres bem-sucedidas, o que vem a reforçar o quão tem sido difícil e nada linear para eles encontrar um norte. O contexto de tantas incertezas em que estão mergulhados, algumas de natureza bem prática, como dar o duro pontapé inicial na carreira, acaba fazendo com que enalteçam tempos de maior estabilidade que ficaram para trás. “Muitos sentem que o futuro não será tão próspero quanto o de seus pais, atados que estão ao ciclo de baixos salários, desemprego e às dificuldades de se fincar no mundo adulto. Em meio à frustração, eles vão à caça de valores do passado”, disse a VEJA Heejung Chung, diretora do Instituto Global de Liderança Feminina do King’s College, entidade à frente da pesquisa.

A conquista de terreno, hoje tão evidente entre jovens mulheres, traz à banda masculina insegurança em uma fase da existência em que valores e autoestima estão sendo cimentados. Na hora de estabelecer elo afetivo, as dúvidas por parte deles afloram em uma gradação diferente de antes. “Muitos relatam não saber como abordar as meninas, que estão muito mais donas de si, e correm atrás de manuais de respostas prontas para questões profundas, daí o perigo”, diz a psicanalista Carolina Delboni, especialista em adolescência.

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“JÁ PENSEI COMO ELES” - O personal trainer Vitor Machado, 27 anos, conta que repensou sua postura no namoro, em que faltava igualdade. Ele reconhece ter amigos machistas. “Já pensei como eles”, admite.
“JÁ PENSEI COMO ELES” – O personal trainer Vitor Machado, 27 anos, conta que repensou sua postura no namoro, em que faltava igualdade. Ele reconhece ter amigos machistas. “Já pensei como eles”, admite. (./Arquivo pessoal)

Recorrer ao solo conhecido, mesmo repleto de distorções sobre a masculinidade que tantas raízes têm nos velhos modelos patriarcais, pode soar como um equivocado porto seguro — mesmo assim, para muitos, é um alívio que os livra do bem mais complexo desafio da reinvenção diante dos novos ventos. Às vezes, o machismo se revela em camadas quase invisíveis, mas para lá de incômodas para quem está na mira. O personal trainer Vitor Machado, 27 anos, demorou a dar-se conta de que havia algo de inaceitável no trato com a ex-namorada e decidiu mudar. “Eu podia sair para a balada, encontrar os amigos, e ela não. Como fazia com minha namorada o que eu não queria para mim?”, lembra ele, que não põe travas à conversa. “Tenho um círculo de amigos que se orgulham de falas machistas e reprimem mulheres”, reconhece.

É no terreno pouco regulado das redes que discursos impulsionados pelo atraso ganham espaço e atraem tantos jovens em plena formação da identidade. Eles se expõem sem filtros à chamada machosfera. Vídeos curtos promovem um passeio completo pelo lado mais obscuro de um pensamento que, no sumo, prega a submissão feminina sustentando que tudo gira em torno do que seria a “natureza humana”. Um bem-sucedido expoente dessa abominável cartilha é o influenciador Gabriel Breier, 27 anos e 1,6 milhão de seguidores, cuja conta havia, até quinta-feira 2, sido suspensa pelo Instagram, tamanha aberração ali contida. A humanidade foi, ao menos por ora, poupada de “aprender” sobre os atributos de um “macho alfa”. Ainda ativo no grupo “soldados”, do Telegram, porém, Gabriel diz a que veio. “O homem que deixa a mulher trabalhar não tem que usar cueca, mas calcinha”, fala. Ao filho de 11 meses, gaba-se de dar armas de brinquedo, ferramenta para criar “homem de verdade, cheio de testosterona”.

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SEM FILTRO - Cena do documentário Por Dentro da Machosfera: o diretor Theroux (à esq.) mergulha no mundo da misoginia
SEM FILTRO - Cena do documentário Por Dentro da Machosfera: o diretor Theroux (à esq.) mergulha no mundo da misoginia (./Netflix)

Depois de meses de imersão nesse universo que se infiltra a cada dia no cotidiano dos jovens, o jornalista britânico Louis Theroux lançou o documentário Por Dentro da Machosfera (Netflix), em que entrevista os precursores do movimento redpill, subcultura digital que defende a submissão feminina e a tomada de território pelas vias da “masculinidade tradicional”. Não é mais uma estranha bolha a anos-luz de distância. “A influência desses perfis é sentida nas escolas, no trabalho e por toda a internet”, afirma Theroux. Um recém-divulgado levantamento do NetLab, da UFRJ, contabilizou uma escalada nos seguidores de canais do gênero no YouTube — 23 milhões, 20% mais do que há dois anos. “Misoginia não é só a violência explícita, mas a propagação de ideias como controle e subordinação”, afirma Luciane Belin, à frente do trabalho.

De tão em voga, o assunto acabou virando objeto de um polêmico projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo, passível de prisão, texto já aprovado no Senado que aguarda o martelo da Câmara. Um ângulo ao qual os especialistas atentam para decifrar a ascensão do machismo em meio a inequívocos avanços em tantos escaninhos da vida se conecta com a disseminação do radicalismo na política, sobretudo entre grupos ultraconservadores de direita. Em cima do palanque e sob holofotes, representantes dessa corrente apregoam o retorno a uma época em que as mulheres tinham bem pouca voz, dedicadas que estavam aos cuidados com o lar. “Esses movimentos extremistas têm considerável potencial para influenciar os jovens”, afirma o psicólogo José Carlos Ferrigno, autor do livro Da Infância à Velhice: o Fenômeno Cultural das Gerações.

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QUE CARTILHA É ESSA? - O influenciador Gabriel Breier, 27 anos, cultiva nas redes a ideia de que homens não devem nunca expor os sentimentos, sob o risco de afastar as mulheres. Ele podou as asas da esposa. “Eu a tirei da faculdade porque o trabalho dela é ser mãe”, diz
QUE CARTILHA É ESSA? – O influenciador Gabriel Breier, 27 anos, cultiva nas redes a ideia de que homens não devem nunca expor os sentimentos, sob o risco de afastar as mulheres. Ele podou as asas da esposa. “Eu a tirei da faculdade porque o trabalho dela é ser mãe”, diz (Redes Sociais/.)

Nas redes, os porta-vozes do atraso vão se segmentando e se organizam em tribos, como a do pessoal que se alinha com a corrente looksmaxxing, sintetizada por uma estética de corpos previsivelmente musculosos e maxilares protuberantes. Na pesquisa do King’s College, 43% dos integrantes da geração Z acham que, sim, devem exalar força física como expressão de masculinidade. É gente como o paulista Gabriel Toledo, 20 anos, que, após dissabores no amor, resolveu ficar atento às dicas de beleza divulgadas em tais perfis. “Nunca era escolhido pelas meninas, então comecei a me alimentar melhor, fazer skincare e até mascar chiclete todo dia para exercitar a mandíbula”, conta. Outros ventilam às vastas plateias virtuais exageros que, para estudiosos do nicho, beiram a doença. Expoente do looksmaxxing, o controverso influencer americano Clavicular (alusão à clavícula que cultiva), 20 anos, propagandeia as práticas perigosas que utiliza, entre as quais injeções de testosterona e o bone smashing, que vem a ser a quebra do maxilar com o objetivo de que renasça em tamanho avantajado. O processo pode trazer graves infecções e deformidades.

SEM AMARRAS - Marcha feminista nos anos 1960: não dá para voltar atrás
SEM AMARRAS - Marcha feminista nos anos 1960: não dá para voltar atrás (Bettmann Archive/Getty Images)
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Enredados em padrões inalcançáveis, e muitas vezes indesejáveis de masculinidade, os homens pagam alto preço emocional. De acordo com a pesquisa do King’s College, 30% dos meninos da geração Z acham inapropriado pronunciar a frase “eu te amo” a amigos, exemplo simples de freio à demonstração de afeto, considerado prejudicial por especialistas. “É uma violência contra eles próprios”, avalia a psicanalista Carolina Delboni. Pois sabidamente a história nunca é linear quando pilares sobre os quais a sociedade está fincada tremem, testemunhando muitas idas e vindas. “Mudanças culturais nunca se dão de forma homogênea”, enfatiza a socióloga Maira Covre, coordenadora do núcleo de estudos sobre relações de gênero da UERJ. Levou tempo para se avançar rumo a um mundo mais igualitário para homens e mulheres. Sempre se espera que os mais novos aprendam com erros das gerações passadas e que com suas cabeças mais arejadas façam um mundo melhor. Essa roda da evolução corre o risco de ser interrompida quando a juventude flerta com o atraso. Machosfera é um tipo de retrocesso inadmissível.

Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989



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