
Todo mundo já percebeu que nada que Donald Trump faz segue uma escala normal, mas às vezes parece que são mesquinhamente politizadas as discussões sobre cada passo que ele dá. Por exemplo, um juiz federal suspendeu a construção do grandioso salão de baile já em obras na parte do complexo da Casa Branca onde ficava a Ala Leste. Enquanto o Congresso não aprovar, fica tudo parado.
Detalhe: a construção de 400 milhões de dólares está sendo toda financiada por doações particulares, sem dinheiro público.
O salão de baile resolve um problema curioso para a sede do executivo do país mais poderoso do mundo: a Casa Branca tem dimensões relativamente pequenas (a disputa por lugares na Sala de Imprensa emula o Estreito de Ormuz) e para recepções maiores o jeito é erguer marquises no jardim, arriscando atolar na grama, em dias de chuva, convidadas de salto alto, entre outros inconvenientes.
O projeto é feio ou bonito? Bem, ele segue o estilo neoclássico, condizente com o restante, e o maior problema são as dimensões grandiosas, desproporcionais em relação aos outros edifícios. Com alma de construtor, Trump já exaltou os materiais de primeira, o vidro à prova de balas das janelas, o bunker antiaéreo no subsolo e até as colunas coríntias, “as mais bonitas”. Um consultor arquitetônico do governo cogitou até em trocar as colunas em estilo jônico do prédio antigo, para combinar com as do salão de baile – mas o assunto ficou em suspenso. Mexer na Casa Branca daria uma verdadeira guerra das colunas.
ESTILO NOVO RIQUÍSSIMO
É claro que o New York Times fez uma reportagem esculhambando com o projeto de Trump, com opiniões unanimemente negativas – algumas até relevantes, como o detalhe intrigante de que a escadaria monumental não dá acesso ao salão, feito por uma entrada lateral, um arranjo algo estranho.
Como construtor – e presidente em último mandato –, Trump quer tudo para ontem e certamente ainda se lembra dos nove meses que a Comissão de Planejamento da Capital Nacional passou discutindo a reforma das grades da Casa Branca – grades! – no seu primeiro mandato. A espessura e a distância entre as grades foram alguns dos temas intesamente debatidos. Agora, a construção do salão de baile está paralisada por iniciativa, na justiça, de “um grupo de lunáticos da esquerda radical”, como Trump se referiu ao Fundo Nacional para a Preservação Histórica – que, apesar do nome, não é oficial.
Como único consolo, ele tem o grandioso projeto da Biblioteca Trump anunciado no começo da semana. O arranha-céu de vidro de um bilhão de dólares, também de doadores amigos, é no mais puro estilo novo riquíssimo – e Trump tem o direito de fazer o que quiser com ele, pois não abrange o patrimônio histórico, como a obra na área da Casa Branca.
O projeto foi tocado por seu filho mais novo, Eric Trump, e tem tudo o que o presidente gosta. Combina com Miami, onde será construído depois que ele deixar a presidência. No saguão monumental, uma réplica da escada rolante dourada, igual à da Trump Tower, em Nova York, que ele famosamente desceu para anunciar a candidatura a seu primeiro mandato. No ambiente monumental, ficará o Air Force One que ele ainda vai ganhar do Catar – um presente altamente impróprio por qualquer padrão ético que se use.
Mais impróprio ainda: duas estátuas monumentais de Trump. Douradas, obviamente. Nada parecido com os monumentos sóbrios que celebram em Washington presidentes históricos como Abraham Lincoln. Todos os adversários – e também alguns simpatizantes – notaram as semelhanças com as estátuas de tiranos orientais, como Kim Il-Sung, na Coreia do Norte, e Mao Tsé-Tung, na China.
Na futura Biblioteca Trump também haverá uma réplica idêntica do salão de baile que agora está embargado na Casa Branca.
MONUMENTOS AOS EGOS
Quem tem saudade da sobriedade chique do tempo do governo de Barack Obama corre o risco de se decepcionar. A biblioteca – ou centro presidencial – que reúne em Chicago toda a documentação e outros espaços dedicados ao ex-presidente é uma coisa horrorosa no outro espectro arquitetônico: um cubo de concreto ao estilo brutalista que faz a má fama da arquitetura moderna. Será inaugurada no próximo 19 de junho.
Fazer bibliotecas presidenciais foi uma moda inaugurada em 1939, quando Franklin Roosevelt doou todos seus documentos, pessoais e oficiais, ao governo federal. Pelos padrões de hoje era um prédio modesto, em Nova York. Embora importantes para historiadores, é óbvio que as bibliotecas viraram monumentos aos egos presidenciais – e não existe ego igual ao do presidente Trump. O arranha-céu reluzente com uma bandeira americana na fachada e o nome Trump bem grande no alto vai fazer jus ao monumental narcisismo.
Mas será que os muitos adversários de Trump conseguirão não lhe dar o gostinho de inaugurar o salão de baile da Casa Branca em seu segundo e último mandato? Muito depende dos prazos – e dos resultados da eleição de novembro para o Congresso. Estes, evidentemente, dependem em grande parte da sensação dos americanos de que a vida está muito cara. Trump apostou que um eventual aumento da gasolina e seus respingos inflacionários seriam revertidos rapidamente depois da intervenção no Irã, mas a realidade está se mostrando mais complicada.
E a discussão sobre colunas jônicas, com suas elegantes volutas, e coríntias, mais ornamentadas, afinal, tem uma relação com a política. Como, aliás, tudo o mais. Ah, se fosse esse o principal problema para Trump resolver…