A transição energética é, sem dúvida, uma agenda relevante do nosso tempo. No Brasil, acompanhamos o avanço acelerado das fontes renováveis, especialmente a solar e a eólica, que hoje posicionam nossa matriz elétrica em um patamar de sustentabilidade invejável globalmente. Porém, a expansão dessas fontes não elimina a necessidade das usinas termelétricas. Na verdade, quanto maior a participação de fontes intermitentes no sistema, mais indispensável é a presença de fontes capazes de garantir estabilidade e segurança energética em nossa matriz. 

Os dados recentes do setor reforçam esse cenário. Segundo o Balanço Energético Nacional 2025, da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), a geração termelétrica cresceu 11,4% em volume no último ano, acompanhando a expansão de 5,5% na oferta interna de energia elétrica. Mesmo com uma matriz altamente renovável, que atingiu 88,2% de renovabilidade, o avanço térmico, impulsionado principalmente pelo gás natural e pela biomassa, demonstra que a segurança do sistema depende dessa base firme para sustentar o crescimento do consumo nacional. 

No setor elétrico brasileiro, lidamos frequentemente com o que costumo chamar de cobertor curto. Durante o dia, somos privilegiados pela fonte solar em abundância, mas quando o sol se põe, justamente na hora em que milhões de pessoas chegam em suas casas e elevam o consumo de eletricidade, enfrentamos um descompasso operacional. Esse fenômeno cria a necessidade de uma rampa de carga severa para compensar essa perda.   

Estimativas da Thymos Energia mostram que a necessidade associada à queda da geração solar pode chegar a 35 GW (gigawatts) nos dias de hoje e a 43 GW até 2028, o que exige resposta rápida do sistema. É neste momento que as termelétricas assumem um papel estratégico ao funcionar como um pilar que viabiliza o crescimento seguro da energia verde, sem qualquer competição com as renováveis. 

Quando o regime hidrológico é favorável, as hidrelétricas conseguem atender boa parte dessa variação de demanda. No entanto, se as condições de chuva não são suficientes, ou ainda há a necessidade de preservação dos níveis dos reservatórios, as termelétricas passam a desempenhar um papel ainda mais essencial para a equalização desse ecossistema. 

A necessidade de estabilidade não é apenas um desafio brasileiro, mas uma tendência mundial. Vivemos uma corrida global por energia firme, impulsionada pela expansão da inteligência artificial e dos data centers. A demanda crescente por energia disponível 24 horas por dia tem pressionado a cadeia global de suprimentos, elevando o custo de equipamentos de geração e ampliando prazos de entrega. 

Por essa razão, o planejamento energético de longo prazo passa a ser crucial. O maior custo para a sociedade não é manter uma usina disponível, mas sim o risco da falta de energia quando ela é necessária. A ausência de eletricidade paralisa a indústria, encarece produtos e compromete o futuro econômico do país. 

Mecanismos como os Leilões de Reserva de Capacidade (LRCap) – como acabamos de ter no país – cumprem papel essencial ao sinalizar antecipadamente a necessidade de potência firme para o sistema. Para projetos de infraestrutura dessa magnitude, quanto maior o horizonte de planejamento, mais competitivas e eficientes se tornam as soluções para o setor elétrico brasileiro. 

Ao mesmo tempo, o perfil das UTEs está evoluindo rapidamente. Hoje, operamos com foco crescente em flexibilidade, eficiência e inovação tecnológica. O uso de combustíveis renováveis, como o biodiesel, abre caminho para modelos de geração térmica livres de combustíveis fósseis. A modernização de ativos existentes e a integração com a infraestrutura de gás natural, como ocorre em nossa plataforma de geração, localizada em Mato Grosso do Sul, próximo ao gasoduto Gasbol, também permitem respostas rápidas e competitivas às necessidades do sistema. 

Assim, a transição energética exige capacidade de adaptação e estar preparado para investir, inovar e contribuir para a segurança energética do país. A experiência da usina William Arjona durante a crise hídrica de 2021 mostrou, na prática, como a geração térmica pode ser decisiva para sustentar o sistema em momentos críticos. 

O fato é que a transição energética brasileira não será construída pela substituição excludente de tecnologias, mas pela complementaridade estratégica entre diferentes fontes. As energias renováveis são o futuro da nossa matriz, mas as termelétricas serão o alicerce que garantirá que o Brasil chegue a esse futuro com segurança, competitividade e desenvolvimento. 

 

Lourival Teixeira é presidente da Delta Geração no Grupo Delta Energia

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.



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