Um marinheiro à moda antiga, Popeye parece uma aberração nos dias de hoje. Com seu cachimbo pendurado no canto da boca, o marujo caolho, semianalfabeto e briguento criado por Elzie Crisler Segar (1894–1938) há quase um século está longe da correção política que se exige de personagens populares na atualidade. Pois foram essas algumas das características que o fizeram cair no gosto do público e o transformaram em protagonista de uma tira familiar na qual deveria ser apenas um coadjuvante passageiro. Essa transição fica mais evidente em Popeye – Primeira aparição: as tiras diárias (1928-1930), que a Tábula Editora acaba de lançar por meio de seu selo Aurora Comics, dedicado ao resgate de histórias clássicas.

O livro, um item para colecionadores e curiosos, reúne as tiras imediatamente anteriores ao aparecimento de Popeye e aquelas em que o marinheiro toma o lugar da estrela das histórias até aquele momento, Olívia Palito. A morena longilínea de rosto redondo e pés grandes era a personagem principal de Thimble Theatre, tira iniciada como publicação diária em 19 de dezembro de 1919, no New York Journal, um dos jornais do magnata da comunicação William Ranpdolph Hearst. Ela e seu irmão Castor, além do então namorado, Ham Gravy, eram os verdadeiros astros dos arcos narrativos imaginados e desenhados por Segar. O marujo surgiria quase dez anos depois, em 17 de janeiro de 1929, quando Castor o contrata para levá-lo junto com Gravy de barco a uma ilha.

POPEYE - Primeira Aparição: As tiras diárias (1928-1930). E.C. Segar. Editora: Tábula. Tradução: Carlos H. Rutz. Preço: R$ 90,95 (capa comum) -
POPEYE – Primeira Aparição: As tiras diárias (1928-1930). E.C. Segar. Editora: Tábula. Tradução: Carlos H. Rutz. Preço: R$ 90,95 (capa comum) – (Tábula Editora/Divulgação)

Após a conclusão dessa aventura, Popeye se despediu. No entanto, a impressão de alguns meses como personagem daquela aventura teve seu efeito. Com modos rústicos e o jeito de falar em inglês que emulava a simplicidade do povo comum, ele ganhou a simpatia imediata dos leitores. Uma quantidade considerável deles escreveu para os jornais em que a tira era publicada pedindo que o marujo macrognata e de antebraços hipertrofiados continuasse aparecendo. “O desenhista percebeu o atrativo que o marinheiro tinha para os leitores e passou a explorá-lo cada vez mais”, escreve em uma das introduções do volume o professor Waldomiro Vergueiro, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. “Assim, colocou-o rapidamente no papel de lutador profissional, onde ele poderia exercitar à vontade um de seus principais atrativos, a força física incomum.”

Com seu sucesso estrondoso, Popeye começou a ganhar um papel cada vez maior em Thimble Theatre. No começo, Olívia não parecia estar interessada no marinheiro, até porque seu namorado ainda era Gravy. Em março de 1930, no entanto, os dois passaram a ser um par romântico e, como por encanto, o antigo parceiro sumiu de cena. Essa troca amorosa consolidou-a também como frequente donzela em perigo, que vivia sendo perseguida por vilões e salva por seu novo amado.

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As Aventuras de Popeye faz parte da programação do novo canal da Globosat
As Aventuras de Popeye faz parte da programação do novo canal da Globosat (Divulgação/VEJA)

Alguns personagens que ficaram famosos ao longo dos 97 anos de aventuras de Popeye não aparecem na coletânea, cuja última história reproduzida, O Mistério Wiltson, foi publicada entre novembro e dezembro de 1930. Brutus, o clássico antagonista de Popeye, apareceu pela primeira vez em 1932, no arco O Oitavo Mar, como um brutamontes sanguinário que só queria matar o marinheiro — após ser derrotado, ele saiu da história.

Foi Max Fleischer, responsável por adaptar as aventuras de Popeye para os desenhos animados em 1933, que resgatou Brutus como um membro regular do elenco, transformando-o no clássico valentão barbudo e corpulento que vivia tentando conquistar Olívia à força. No começo, ele era chamado de Blutus, assim mesmo, com “L”. A troca pelo “R” viria a acontecer no início da década de 1960, devido a um mal-entendido sobre direitos autorais.

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Força descomunal

Em Popeye – Primeira Aparição, o leitor tampouco verá o marinheiro abrindo a lata de espinafre que lhe dava força sobre-humana e se transformou em uma de suas marcas distintivas. Nessas primeiras histórias, o marujo conquistou sua força esfregando as penas de uma galinha mágica chamada Bernice na cabeça. A verdura como catalizador da potência de seus músculos viria bem depois, entre 1931 e 1932, ainda nas tiras de jornal. Novamente, foi Fleischer quem percebeu o potencial da ideia e a transformou em uma marca registrada das animações para o cinema.

A escolha do espinafre como o “superalimento” do marinheiro é cercada por um mito famoso e um fato comprovado. Em uma tirinha de 1932, Popeye afirma que come espinafre porque é “cheio de Vitamina A”. Em meio à Grande Depressão, um período em que grande parte da população americana estava subnutrida, o espinafre era um alimento rico em nutrientes e, mais importante, barato. O fascínio das crianças pelo poder que o alimento dava foi tão grande que o consumo aumentou em 33% no país, chegando a salvar comunidades agrícolas inteiras do colapso econômico.



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