
As novelas verticais se tornaram um fenômeno que movimenta bilhões de dólares pelo mundo. Em 14 de abril, Alberto Marquez, diretor Comercial da Geca (Gabinete de Estudios de la Comunicación Audiovisual), responsável pela pesquisa Teleformat, estará no Brasil para a segunda edição do LatAm Content Meeting, onde dará uma palestra sobre as tendências desse mercado prolífico. A VEJA, o executivo falou de como o Brasil virou solo fértil para os microdramas.
Por que o Brasil é um mercado interessante para a produção de novelas verticais? O Brasil reúne várias vantagens estruturais que o tornam um dos mercados mais atraentes de se observar no espaço da ficção vertical. Primeiro, possui uma das indústrias de telenovelas mais poderosas e reconhecidas internacionalmente, com décadas de experiência em narrativa emocional serializada por meio de grandes emissoras como Globo, SBT e Record. Segundo dados da Teleformat analisados pela Geca, o Brasil estreou seis novas telenovelas originais em 2025, ocupando o segundo lugar global, atrás apenas do México. Isso reforça a força contínua da América Latina como um hub de produção para ficção serializada. Ao mesmo tempo, o Brasil faz parte de uma mudança regional mais ampla em direção ao consumo focado em dispositivos móveis (mobile-first). A América Latina tornou-se um dos territórios de crescimento mais rápido para a ficção de formato curto. No início de 2025, a região representava mais de um quarto dos downloads globais de aplicativos de drama vertical (perto de 100 milhões de downloads em um único trimestre), mostrando um forte apetite do público por esse tipo de conteúdo.
Como as empresas vêm investindo nesse mercado? O que torna o Brasil particularmente interessante, no entanto, é que o mercado não está apenas importando formatos verticais, mas desenvolvendo ativamente seu próprio ecossistema. O formato chegou ao país em português em 2025 através de plataformas como a ReelShort, onde os primeiros títulos alcançaram rapidamente um alcance massivo, superando 100 milhões de visualizações em apenas alguns dias. Logo depois, os players locais começaram a experimentar estratégias de conteúdo original. A Globo, por exemplo, testou inicialmente a narrativa vertical criando cenas curtas de spin-off de suas principais novelas para redes sociais, antes de passar para produções verticais totalmente dedicadas, que geraram centenas de milhões de visualizações e incorporaram modelos de assinatura exclusivos para celular. Além das emissoras tradicionais, novos players especializados também estão surgindo. Em 2026, o Grupo Abril lançou uma plataforma focada inteiramente em micro-dramas verticais, a Pop! Pop! Pop! (também conhecidas como “novelinhas pop”), apresentando produções brasileiras originais projetadas especificamente para visualização em smartphones, com episódios que duram entre 90 segundos e três minutos. Nesse sentido, o Brasil oferece uma combinação única: uma cultura de telenovela profundamente enraizada, um público móvel vasto e engajado, condições de produção competitivas e, cada vez mais, uma indústria local capaz de adaptar a narrativa vertical à sua própria lógica criativa e de negócios. Essa convergência torna o Brasil um dos mercados mais dinâmicos e estrategicamente importantes na evolução global das novelas verticais.
As novelas verticais podem se tornar uma ameaça às telenovelas tradicionais? Em vez de representar uma ameaça direta, as novelas verticais devem ser compreendidas como parte de uma evolução mais ampla do ecossistema audiovisual. Embora disputem a atenção do público jovem, as novelas tradicionais mantêm profundidade e valores de produção que o formato curto não replica. O futuro aponta para a coexistência: os formatos verticais funcionam para momentos específicos de consumo e como laboratório criativo de baixo risco. O cenário atual reflete o surgimento de uma nova gramática narrativa moldada pela tecnologia, e não o declínio da ficção tradicional.