
A chinesa BYD registrou em 2025 sua primeira queda anual de lucro em quatro anos, num sinal de que o boom dos carros elétricos na China começa a enfrentar limites após anos de crescimento acelerado.
O lucro líquido da montadora recuou 19%, para 32,6 bilhões de yuans, apesar de a receita ainda ter avançado modestos 3,5%. No último trimestre, os resultados vieram ainda mais fracos, com queda de 14% no faturamento e lucro abaixo das estimativas do mercado.
O desempenho reflete uma combinação de fatores que vem reconfigurando o maior mercado automotivo do mundo. A demanda doméstica perdeu fôlego no pós-pandemia, ao mesmo tempo em que a competição se intensificou com a entrada de novas montadoras e a rápida renovação de modelos. O resultado foi uma guerra de preços que corroeu margens em todo o setor.
A participação da BYD no mercado chinês de veículos elétricos caiu de 33% para 24,6% no quarto trimestre, segundo estimativas de analistas, evidenciando a perda de espaço num ambiente mais fragmentado.
A margem da companhia também encolheu, pressionada por descontos agressivos e custos elevados de insumos.
Nos bastidores, o próprio governo chinês passou a intervir de forma indireta, sinalizando desconforto com a competição predatória entre fabricantes, movimento descrito por analistas como uma tentativa de conter a chamada “involução” do setor, quando empresas competem reduzindo preços a níveis que comprometem a sustentabilidade do negócio.
O cenário coloca a BYD diante de um dilema estratégico.
Líder em volume e conhecida por modelos de baixo custo, a empresa precisa preservar participação no mercado doméstico sem sacrificar rentabilidade, ao mesmo tempo em que acelera sua internacionalização para compensar a desaceleração interna.
Essa transição já está em curso. A montadora vem ampliando presença na Europa, América Latina e Sudeste Asiático, mercados onde busca replicar sua estratégia de preços competitivos aliada a escala industrial.
No Brasil, por exemplo, a empresa tem investido em produção local e expansão de rede, de olho no avanço da eletrificação.
Ao mesmo tempo, a aposta tecnológica ganhou centralidade.
Em março, a companhia anunciou uma nova bateria de recarga ultrarrápida, capaz de atingir grande parte da carga em poucos minutos, um movimento alinhado à corrida global por redução do tempo de recarga, hoje um dos principais gargalos da adoção de veículos elétricos.
Modelos mais sofisticados, como os da submarca Denza, também fazem parte da estratégia de subir o ticket médio e disputar segmentos de maior valor agregado, hoje dominados por rivais internacionais e players premium chineses.
Analistas veem o curto prazo ainda desafiador, com vendas pressionadas e custos elevados no início de 2026.
A expectativa, porém, é de melhora gradual ao longo do ano, impulsionada por novos lançamentos, expansão externa e crescimento da divisão de armazenamento de energia, área vista como vetor complementar ao negócio automotivo.