O atoleiro que prendeu um ônibus escolar na quarta-feira (25/3) em uma rota improvisada entre o Paranoá e o Sobradinho dos Melos e Capão da Onça, no Distrito Federal é só o acontecimento mais recente de um problema antigo.


A quilômetros dali, uma ponte destruída interrompe completamente a passagem de moradores e transforma tarefas simples em um desafio diário. No local, não passam com segurança carros, motos ou ambulâncias.

A estrutura é conhecida e carinhosamente pelos moradores como “Ponte do Seu Joaquim”, e cedeu no início deste ano. Desde então, quem vive do outro lado se vira como pode: a pé, carregando compras, botijão de gás e até atravessando longas distâncias para conseguir acesso ao básico.

Mesmo os moradores que precisam passar de Sobradinho dos Melos, no Paranoá para o Capão da Onça de carro, e são obrigados a desviar 23 quilômetros que seriam poupados com a reestruturação da estrutura, são atingidos novamente pela insegurança de outra ponte: para chegar ao local do atolamento, é necessário transitar por uma ponte de madeiras irregulares e sem manutenção.

Joaquim José Moreno, morador da região há 30 anos e personalidade que deu nome à ponte
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Joaquim José Moreno, morador da região há 30 anos e personalidade que deu nome à ponte

Luis Nova/Especial Metrópoles @LuisGustavoNova

Queda de ponte no DF obriga moradores a pegar desvio de 23 km - imagem 2
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Moradores atravessam a ponte a pé, com compras e itens pessoais
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Moradores atravessam a ponte a pé, com compras e itens pessoais

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“Para comprar um pão, a gente anda 12 quilômetros”, resume uma moradora.

A aposentada Maria José da Conceição Ramos, de 67 anos, vive sozinha desde a morte do marido e encontrou no quadriciclo uma forma de manter alguma autonomia, mas nem o veículo resolve completamente o problema.

Maria José da Conceição Ramos, de 67 anos, vive sozinha desde a morte do marido
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Maria José da Conceição Ramos, de 67 anos, vive sozinha desde a morte do marido

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A alternativa que a moradora encontrou foi comprar um quadriciclo
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A alternativa que a moradora encontrou foi comprar um quadriciclo

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Conceição estaciona o quadriciclo na área mais próxima da ponte, e segue a pé até o destino
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Conceição estaciona o quadriciclo na área mais próxima da ponte, e segue a pé até o destino

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“Eu vou até aqui, deixo o quadriciclo e sigo a pé. Agora não dá pra passar. Se passar mal lá em cima, morre, porque não tem como chegar socorro”, relata.

O medo não é exagero ou pesadelo sem base. Segundo ela, o marido sofreu um infarto durante a madrugada, em 2025, e só conseguiu ser socorrido porque a ponte ainda permitia passagem.

Travessia improvisada e rotina de risco

Sem a ponte, moradores se arriscam em rotas alternativas precárias — como a estrada de terra onde o ônibus escolar atolou nesta semana. Em dias de chuva, o caminho vira lama.

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Quem passa pelo local coloca madeira e detritos a fim de dificultar que os veículos atolem

Nesta quarta (25/3), um ônibus escolar atolou na rota alternativa
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Nesta quarta (25/3), um ônibus escolar atolou na rota alternativa

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Quem passa pelo local coloca madeira e detritos a fim de dificultar que os veículos atolem
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Quem passa pelo local coloca madeira e detritos a fim de dificultar que os veículos atolem

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“Se o ônibus daquela altura atola, imagina os carros”, comenta um dos moradores.

A alternativa mais comum tem sido atravessar a pé. Para quem mora mais afastado, o trajeto pode levar minutos, até, isso quando é possível passar.

Aos 73 anos, Helena Anselmo Januário carrega as compras em um carrinho improvisado: “É tudo assim, arrastando. Tem que trazer tudo no braço”, conta. Ela diz que sai de casa apenas uma vez por semana, quando consegue: “Se precisar de mais coisa, não dá. A gente fica sem.”

Ponte improvisada por moradores

A travessia no local nunca foi simples. Segundo Joaquim José Moreno, de 78 anos, o senhor que dá nome à ponte, a estrutura sempre foi improvisada.

“Quando eu cheguei aqui, em 1990, já era de madeira. Duas madeirinhas no meio, a gente passava se equilibrando”, relembra. Ao longo dos anos, os próprios moradores fizeram reparos como podiam. Há cerca de dois anos, uma reforma foi realizada, mas a estrutura voltou a ceder após as chuvas.

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Na reforma realizada, a ponte teve a estrutura reforçada
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Na reforma realizada, a ponte teve a estrutura reforçada

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O buraco de terra que cedeu
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O buraco de terra que cedeu

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“Ficamos seis anos esperando arrumar. Quando arrumaram, não durou”, comenta Carlos Jean Moreno, um dos nove filhos de Joaquim.

A situação é tão antiga que já virou até ironia entre os vizinhos: em 2024, eles chegaram a fazer um “aniversário” simbólico da ponte, como forma de protesto pela demora nas obras.

Produção prejudicada e isolamento

A região é formada por chácaras e áreas produtivas. Há criação de animais, produção de ovos, hortaliças e outros alimentos que dependem do escoamento diário.

“Tudo passa por aqui. Produção, gente, tudo. Agora ficou travado”, relata um morador.

Mesmo com pontos de parada de ônibus espalhados ao longo da estrada, não há transporte público regular na região. Antes, apenas o ônibus escolar fazia o trajeto, e agora consegue passar somente pelo desvio, que os distancia a mais de 20km da passagem.

Os moradores relatam que já buscaram ajuda diversas vezes, mas dizem não ter retorno efetivo do poder público. Segundo eles, há promessas de reconstrução da ponte, mas sem prazo concreto: “A gente cobra, mas ninguém responde”.

O Metrópoles tentou entrar em contato com a Administração Regional do Paranoá, mas não houve resposta até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto



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