
O consumo da metanfetamina no Brasil sofreu uma mudança substancial nos últimos anos: na capital paulista, quadrilhas formadas por chineses, mexicanos, nigerianos, portugueses e dominicanos passaram a fabricar o entorpecente em solo nacional, reduzindo drasticamente o custo do grama. Até então, a metanfetamina era sempre importada, chegando a custar até 500 reais o grama. Agora, nessa nova logística, o mesmo grama pode custar até trinta reais, o que acende um alerta tanto para a segurança quanto para a saúde públicas.
O caso começou a ser investigado pela Polícia Civil de São Paulo quando um chinês fez uma denúncia de trabalho escravo — ele veio para o Brasil atraído por uma promessa de emprego que não era verdadeira. A partir disso, os investigadores foram puxando o fio da meada. Em um apartamento no bairro da Aclimação a polícia descobriu que funcionava um escritório clandestino em que vários traficantes chineses, comandados por Marcos Zheng e Pikang Dong (apelidado de “Rodízio”), buscavam a droga para ser vendida em festas, motéis e casas norturnas.
Apesar do núcleo chinês ser o maior e mais estruturado, eles não fabricavam a droga. Quem detinha a receita, segundo a polícia, é o mexicano Guilhermo Fabian Martinez Ortiz, apelidado de “Cozinheiro”. Ele trabalhava como engenheiro naval em uma petrolífera de grande porte no seu país de origem, mas teria abandonado o mercado de trabalho formal para criar uma fórmula da droga em solo brasileiro. Em pouco tempo, o núcleo de traficantes nigerianos, que seria comandado por Francis Philip, abriu a concorrência e começou a também fabricar a droga, a preços ainda mais baixos, chegando a até 30 reais o grama.
O caso foi descoberto em uma operação da Polícia Civil de 2024 batizada de Heisenbeg, em alusão ao protagonista da série americana Breaking Bad, que é um professor de química que abandona o emprego depois de descobrir um câncer para se dedicar à fabricação da metanfetamina. No entanto, as quadrilhas que vendem esse entorpecente em São Paulo continuam nas ruas: em agosto passado, a polícia prendeu um grupo de dominicanos com quase três quilos da droga na avenida São João. A metanfetamina é vendida a partir de um grama e fica no corpo humano por muito tempo (de dez a treze horas), mas pode causar danos irreversíveis.
Reportagem de VEJA da edição nº 2988 conta os detalhes da atuação do grupo criminoso e os riscos para a saúde pública.