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Em maio do ano passado, durante a CPI das Bets, o senador mineiro Cleitinho Azevedo (Republicanos) teve um breve momento de exposição midiática nacional ao ir na contramão do colegiado e fazer elogios à influenciadora digital Virginia Fonseca, que estava sentada entre os parlamentares para prestar esclarecimentos sobre sua conduta na divulgação de jogos virtuais de aposta. Em vez de inquiri-la sobre o assunto, o senador a defendeu e pediu que gravasse um vídeo com ele, mandando beijos para sua mulher e sua filha. A situação chamou atenção pelo tom esdrúxulo do pedido, o que até o levou a pedir desculpas públicas posteriormente. Um comentário da influenciadora, porém, comprovou que a cena não representava meros quinze minutos de fama do parlamentar: ele já era um fenômeno das redes sociais. “Cleitinho, eu sabia que eu te conhecia de algum lugar. Eu te conheço, já vi vídeos seus”, comentou Virginia, entre risos. Cleitinho vem demonstrando ser capaz de transferir o sucesso na internet (quase 4 milhões de seguidores no Instagram e 2 milhões no TikTok) para as intenções de voto para o governo de Minas Gerais — apesar de nem sequer ter decidido, por enquanto, se será candidato.

O senador lidera em todos os cenários nas pesquisas eleitorais, chegando a aparecer em um deles com 40% das intenções de voto no primeiro turno e 21 pontos percentuais de vantagem em relação ao segundo colocado. A despeito disso, vem dando declarações contraditórias a respeito de sua disposição em ser candidato. Ora diz que irá mesmo para a campanha, ora fala em abrir mão da empreitada para engrossar uma frente de direita. Mateus Simões (PSD) é o nome posto na corrida por esse grupo. Simões era o vice de Romeu Zema (Novo) na atual gestão e acaba de assumir o comando do estado, que ficou vaga após a renúncia do governador. Zema, que apoia Simões, tenta viabilizar uma candidatura presidencial.

Sem se posicionar com clareza no páreo mineiro, Cleitinho evita ataques mais pesados dos adversários e ganha tempo. Tudo indica que está aguardando para ver se contará com apoio de outros partidos de direita, em especial, do PL, que está inclinado a lançar um candidato próprio. A principal liderança do partido no estado, Nikolas Ferreira, não aceitou a missão, mas terá um peso grande na escolha de um nome. Ao lado do presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, Nikolas terá a palavra final sobre a candidatura em Minas. Até o momento, o parlamentar ainda não fez nenhum gesto público de apoio a Cleitinho.

arte Cleitinho

A indecisão do senador tumultua ainda mais uma campanha marcada por grandes interrogações. Depois de muita hesitação, o senador Rodrigo Pacheco aceitou o pedido do presidente Lula para representar a centro-esquerda no páreo. Um bom palanque no estado é fundamental para o projeto de reeleição do petista. Pacheco já aparece em segundo lugar nas pesquisas, mas ainda não encontrou um partido. Ele precisa sair do PSD, a sigla de Mateus Simões (que pontua bem atrás nos levantamentos de intenções de votos), e tem hoje como opções PSB, MDB e União Brasil. Como Cleitinho divide a direita, o ideal para o atual governador é que o senador saia do páreo, declarando apoio a ele. A esquerda tampouco caminha unida, pois a corrida conta também com a presença da candidatura de Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito de Belo Horizonte.

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O indeciso Cleitinho assiste às indefinições dos outros partidos de camarote e joga a própria decisão lá para frente. “Ela será tomada nas convenções. Meu partido já sabe disso: no final de maio ou início de junho eu decido”, disse o senador a VEJA. Com uma trajetória relativamente curta na política (menos de dez anos), Cleitinho, ex-comerciante e músico, cresce junto ao eleitorado por causa de seu estilo populista e focado no uso de redes sociais. É comum vê-lo de tênis e camisa de times de futebol em vídeos que diz serem urgentes e nos quais grita, indignado, por alguma situação de descaso público ou de desrespeito a consumidores. “Conteúdos polêmicos são os que mais viralizam na internet”, afirma Mayra Goulart, cientista política da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além disso, o parlamentar, que se diz de direita, conservador e bolsonarista, não se poupa de polêmicas: já fez elogios a medidas do governo Lula, como a isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 000 reais, e se indispôs com caciques do próprio partido, como o presidente da Câmara, Hugo Motta, e lideranças ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, ao se colocar contra o aumento do número de deputados de 513 para 531.

Se resolver realmente entrar na disputa e conseguir o apoio do PL, Cleitinho será favorito e uma peça fundamental para o bolsonarismo em Minas Gerais, considerado um dos estados mais decisivos para a eleição presidencial. Segundo a máxima dos marqueteiros, “quem ganha no estado vence no Brasil”. O senador não decide, mas não perde chance de dar corda às especulações. “Acredito que eu poderia ser o candidato do PL pela afinidade que tenho com Flávio. Seria natural ele me apoiar. Caso contrário, não vou ficar chateado”, diz, em declaração típica de um bom mineiro.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988



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