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Homens fardados palestram em uma escola primária de Karabash, interior da Rússia. Não se trata de oficiais do Exército do país, mas de mercenários do Grupo Wagner, paramilitares não oficiais do Kremlin. Os indivíduos, com pose heroica, colocam minas terrestres nas mãos das crianças, contam como se protegem em tiroteios e, por fim, deixam os jovens empunharem armas de fogo. Mais tarde, a aula de educação física inclui atividades como arremesso de granadas e tiro ao alvo. O cenário impensável é um entre vários momentos de cair o queixo em Um Zé Ninguém contra Putin (Mr. Nobody Against Putin, Dinamarca/Reino Unido/Alemanha/República Tcheca, 2025), vencedor do Oscar de melhor documentário e que acaba de chegar à plataforma de streaming Filmelier+.

O registro que deu origem ao filme foi feito pelo professor Pavel Talankin, apelidado de Pasha, que assiste com asco à militarização do colégio. Ele grava as aulas a mando do governo, que exige provas do uso adequado de sua nova cartilha patriótica, aplicada desde 2022, após a invasão russa na Ucrânia que se estende até hoje. Em uma versão extrema do embate entre Davi e Golias, o educador se recusa a ser um peão do regime do qual é declaradamente contrário. Sua insignificância vira trunfo quando se alia em segredo a produtores estrangeiros, que o ajudam a transformar as gravações em denúncia. Fazem isso, ainda, com sagacidade e altas doses de ironia: o documentário, codirigido pelo americano David Borenstein, passa longe de ser tedioso, transitando do humor ao drama com fluidez.

REBELDE - Pavel Talankin: pequenos atos de coragem contra a opressão
REBELDE - Pavel Talankin: pequenos atos de coragem contra a opressão (Pavel Talankin/Divulgação)

Idealista e nerd assumido — do tipo que usa Harry Potter como ferramenta didática —, Pasha vai de professor amado a pessoa a ser evitada conforme a opressão do governo se acirra. Pequenos atos de rebeldia, como ostentar a bandeira de protesto da Rússia democrática em sala, o colocam na mira de apoiadores do regime. Conforme o cerco aperta, ele faz uma fuga digna de cinema do país com as gravações escondidas. Hoje exilado na Europa e com um Oscar em mãos, Pasha pode não ter derrubado Putin, mas o impacto causado por sua coragem é louvável — e inestimável.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988



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