
A temporada carioca da peça Um Dia Muito Especial se despede do público neste fim de semana, em cartaz até domingo, 29, no Teatro Claro Mais. Em cena ao lado de Reynaldo Gianecchini, Maria Casadevall tem usado a reta final da temporada para destacar o caráter político da história inspirada no clássico dirigido por Ettore Scola. Para a atriz, a trama, ambientada na Itália fascista dos anos 1930, ganha novo peso no cenário contemporâneo. Em conversa com a coluna GENTE, Casadevall também menciona o impacto do período recente da política brasileira sobre a cultura. Depois da temporada no Rio, a peça seguirá em turnê pelo país. Enquanto isso, a atriz promete continuar levando ao palco um alerta que, segundo ela, nunca deixou de ser necessário: o de que o fascismo pode parecer passado, mas continua à espreita.
A temporada de Um Dia Muito Especial no Rio está chegando ao fim. Que balanço você faz dessa experiência? Estar em cartaz no Rio tem sido uma experiência acolhedora, uma temporada de casa lotada e público interessado e interessante, realmente disponível a ouvir a história que temos pra contar.
O que mais te marcou nessa temporada? A atenção plena de uma plateia realmente disponível, navegando com a gente nos momentos de tensão, de riso e acolhendo com maturidade os desconfortos que aparecem no jogo de espelhos que é o Teatro.
Como foi construir essa parceria em cena com Reynaldo Gianecchini? O que vocês descobriram um sobre o outro no palco? Nosso processo de ensaio foi acolhedor e nutritivo. Assim como as personagens na peça criam um espaço seguro para ser quem são ao se encontrarem em uma tarde especial, de alguma forma nós também criamos nosso espaço seguro na sala de ensaio, para que nossas vulnerabilidades pudessem se mostrar sem medo, acolher o outro, ouvir, ter espaço pra falar, para errar, experimentar possibilidades criativas e a partir deste lugar generoso e atento deixar a parceria nascer, o jogo fluir dos ensaios para o palco.
A peça é inspirada no filme Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola. Por que certos temas da História ainda dialogam tanto com o presente? Na verdade, a peça aborda temas que nunca saíram de pauta como a condição da mulher em uma sociedade patriarcal e machista, a questão da homossexualidade e como esses corpos são marginalizados por uma estrutura de poder. Embora desde a escrita da peça nos anos 70 alguns direitos tenham avançado através da luta das mulheres e da luta LGBTQIAPN+ ainda há muito a se avançar e muita resistência para não se perder o que já foi conquistado. Porém, a temática fascista da peça, essa sim parecia um tema superado politicamente mas, infelizmente, abordar essa temática hoje com ideologias fascistas ocupando espaços de muito poder no mundo é muito mais urgente do que no momento em que a peça foi escrita e assume, como deve ser, um caráter de denúncia e propõe reflexões extremamente contemporâneas.
Você já disse que é uma pessoa mais reservada. A timidez em algum momento foi um obstáculo na carreira? Me considero uma pessoa mais introvertida do que tímida; e acredito que este traço da minha personalidade mais me ajuda do que me atrapalha na minha profissão.
Como você avalia o momento atual do cinema brasileiro e que tipo de projeto no cinema gostaria de fazer? Estamos em um momento de colher bons frutos e de reconhecer através dos resultados a importância do incentivo à cultura nacional, depois de um período bolsonarista de desmonte, sucateamento e abandono. Desejo muito fazer cinema neste momento de retorno ao ofício, quero estar com pessoas que admiro dentro e fora de cena, trabalhar majoritariamente com mulheres, pessoas trans, corpos diversos, contar histórias que eu considere relevantes e que tenham potencial de transformação, pessoal, social e coletiva.
Fora do trabalho, você costuma levar uma vida discreta. O que te ajuda a manter o equilíbrio longe dos holofotes? O movimento, a respiração consciente e a minha fé.
Quais são os próximos projetos a realizar? Seguiremos com a temporada linda dessa peça pelo Brasil e pretendo conciliar a turnê com novos projetos que estão por vir no audiovisual.