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Nintendo sempre soube que, nos momentos de maior pressão, seus monstros de bolso entrariam em campo. Em março, o lançamento de Pokémon Pokopia, novo título da franquia mais valiosa da companhia japonesa, tornou-se um fenômeno imediato — e chegou num momento em que o gigante de Kyoto precisava muito de boas notícias. O jogo vendeu mais de 2,2 milhões de cópias em apenas quatro dias. Só no Japão o consumo foi de 1 milhão de unidades, o suficiente para esgotar estoques nas prateleiras e inflar o preço do título do jogo na loja virtual Amazon. No mercado financeiro, o impacto foi igualmente expressivo: as ações da Nintendo dispararam 15%, subindo de 54 para 63 dólares em dois pregões consecutivos. Para os investidores que acompanhavam um ciclo recorrente de más notícias, o alívio foi quase tão rápido quanto o sucesso do lançamento.
O contexto que tornou esse resultado ainda mais marcante remonta a meados de 2025, quando a Nintendo lançou o Switch 2, sucessor do seu console híbrido mais vendido. A recepção ficou aquém das expectativas. Segundo especialistas, o problema estava na base do projeto: o hardware enfrentou uma severa crise na cadeia de suprimentos, causada pelo encarecimento de 41% nos módulos de memória RAM no último trimestre de 2025. A consequência foi uma perda estimada em 14 bilhões de dólares para a empresa e uma queda de 5% em suas ações em dezembro, um duro golpe para quem esperava que o novo console repetisse o êxito do antecessor. Diante desse panorama, a Nintendo recorreu a sua fórmula infalível: mobilizar o exército de criaturas que conquista gerações desde 1996. A The Pokémon Company (TPC) registrou faturamento recorde de 2,6 bilhões de dólares no último ano fiscal, o que significou crescimento de 31%, impulsionado por produtos licenciados e pelo mercado mobile, ou seja, de jogos para celular. São números incontestáveis, que revelam a solidez de uma franquia ao completar trinta anos em plena expansão.
Explicar essa longevidade exige olhar para a capacidade da série de se renovar ao longo das gerações. “A franquia Pokémon conseguiu algo raro no entretenimento: criou um ciclo geracional”, diz Reinaldo Ramos, vice-coordenador do bacharelado de jogos digitais da PUC-SP. “Crianças que jogaram nos anos 90 hoje são adultos que continuam consumindo os jogos e apresentam a franquia para seus filhos.” Para ele, a cada novo título, a série incorporou criaturas e mudanças na forma de jogar sem mexer na estrutura que sustenta a franquia.
Pokopia é um bom exemplo dessa capacidade de se adaptar. O jogo deixa de lado as batalhas clássicas e aposta na construção de um novo mundo virtual, aproximando-se da linguagem de jogos como Animal Crossing e Minecraft. Essa mudança abriu a franquia para um público muito além dos fãs históricos — e esse talvez seja seu maior trunfo. “Até quem não gosta de Pokémon está interessado em jogar”, diz a publicitária e criadora de conteúdo Raquel Segal. “Todos eles são muito gostáveis. Por isso, falam que todo mundo tem um Pokémon favorito, por mais esquisito que seja.”

O que Pokémon Pokopia demonstrou vai muito além de números recordistas de vendas ou de uma alta momentânea nas bolsas. O desempenho do jogo deixa claro que a Nintendo tem algo raro no setor: uma franquia capaz de vender consoles, mexer com o mercado e atrair novos públicos ao mesmo tempo. Nos momentos mais difíceis, os monstros de bolso entram em campo — e, pelo histórico de três décadas, raramente saem derrotados.
Com reportagem de Natalia Tiemi Hanada
Publicado em VEJA, março de 2026, edição VEJA Negócios nº 24
