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Após quase dois anos de uma longa batalha judicial contra o próprio pai, a jovem Noelia Castillo Ramos, de 25 anos, morreu nesta sexta-feira, 27, ao se submeter a um procedimento de eutanásia. Paraplégica e lutando contra traumas físicos e psicológicos, ela alimentava o desejo de partir em seus próprios termos, o que gerou uma intensa disputa na justiça da Espanha pelo direito ao suicídio assistido.
“Quero partir em paz já e parar de sofrer, ponto final”, disse a jovem dias antes de sua morte, em entrevista à emissora espanhola Antena 3. Ela passou 20 meses em busca de uma permissão para passar pela eutanásia, sendo atendida após vitórias em todas as instâncias da justiça espanhola e no Tribunal Europeu de Direitos Humanos.
De acordo com Noelia, sua decisão remonta a uma vida de turbulências, que começou ainda cedo, aos 13 anos. Após ver sua família se desestruturar com a separação de seus pais, a jovem passou um período em um centro de cuidados supervisionados, onde foi diagnosticada com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno de personalidade borderline.
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Ao longo da entrevista à Antena 3, a jovem expôs ter sido vítima de três episódios de abuso sexual. O primeiro teria sido cometido por um ex-namorado, o segundo por dois homens em uma boate, e o terceiro envolvendo três jovens em um bar. Sua primeira tentativa de suicídio ocorreu dias após o último episódio, em outubro de 2022. Ela acabou sobrevivendo, mas ficou paraplégica e presa a uma cadeira de rodas — um ponto de virada para considerar a eutanásia.
A legislação espanhola prevê o suicídio assistido desde junho de 2021. No entanto, o processo de Noelia foi muito mais complexo do que o regramento prevê, principalmente pela posição da família. Inicialmente, o pedido da jovem foi aprovado pela Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha em 18 de julho de 2024. Segundo o órgão, ela possuía “uma situação clínica irrecuperável”, com “dependência severa, dor e sofrimento crônico e incapacitante” que a impedia de viver de forma autônoma.
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No entanto, o procedimento não ocorreu de imediato porque seu pai iniciou uma briga judicial, alegando que a filha seria incapaz de tomar tal decisão. Apoiado pelo grupo conservador Advogados Cristãos, ele levou a disputa a cinco instâncias judiciais: um tribunal de Barcelona, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, o Supremo Tribunal, o Tribunal Constitucional e o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Nenhum dos órgãos se opôs a Noelia, afirmando que ela atendia aos requisitos e podia decidir sobre sua morte.
“Finalmente consegui, e agora talvez eu possa finalmente descansar”, disse a jovem após a determinação da corte europeia. “Eu não aguento mais essa família, não aguento mais a dor, não aguento tudo que me atormenta em minha cabeça”. Após se despedir de parentes, a jovem solicitou que fosse deixada em paz em seus últimos momentos.
“Não quero que me vejam fechar os olhos”, pediu.