
Se você tem a sensação de que a qualidade das coisas que vê na internet caiu drasticamente, talvez seja mais do que impressão sua. E isso tem a ver com a facilidade de se criar quase qualquer vídeo ou imagem (por mais absurdo que seja) com as ferramentas de inteligência artificial.
O fenômeno é tão amplo e universal que ganhou nome trazido de fora: AI Slop. Em português a gente poderia chamar de lavagem, como a que se serve aos porcos – e, nesse caso, os suínos somos você e eu, sacou?
Mas também dá para usar a palavra CHORUME, como bem comparou a colega Rosana Hermann, com quem estive dia desses no podcast É Noia Minha, da Camila Fremder, num papo sobre inteligência artificial. Ou seja, nossos olhos são banhados em chorume o tempo todo, e isso devia ser suficiente para refletirmos sobre as escolhas on-line da nossa geração (bom, gerações, no plural).
Claro, NEM TODO conteúdo feito com IA é ruim. Muita coisa legal é feita com a tecnologia também, porém as criações de baixa qualidade são mais numerosas e se espalham com rapidez impressionante.
Certo, mas o que é AI Slop?
A explicação acima meio resolve, mas vamos para uma versão formal: AI Slop foi o nome gringo dado a conteúdos digitais de péssima qualidade produzidos por inteligência artificial generativa – sempre a pedido de algum humano com péssimo gosto ou que sabe que a tosquice pode engajar as pessoas na internet. O termo abrange textos, imagens, vídeos e áudios gerados de forma rápida, repetitiva e superficial, priorizando quantidade em vez de qualidade.
Como surgiu essa expressão?
O AI Slop costuma ser conectado diretamente à proliferação dos modelos de IA generativa que, do fim de 2022 em diante, ganharam o mundo, a mídia, nossas timelines, nossas vidas. Apareceu primeiro em fóruns on-line, e de gíria para “insiders” acabou se popularizando.
E você com isso, leitor? Por que você precisa conhecer o termo?
Eu poderia dizer que a principal razão é evitar que o consumo frequente de conteúdo horrível transforme você numa pessoa igualmente péssima, mas hoje estou de bom humor. Então, a versão polida do que acabei de escrever é: porque o AI slop é uma realidade e precisamos lidar com ela. Pesquisas mostram que 20% do conteúdo exibido a contas novas no YouTube é vídeo de IA de baixa qualidade, e mais de 50% do tráfego total da internet já é gerado por bots.
Ou seja, reconhecer esse tipo de conteúdo é essencial para não ser enganado, para manter o senso crítico e para não disseminar desinformação (in)voluntariamente.
Quais os problemas causados pelo AI Slop?
Mais do que reclamação de saudosista nostálgico que acha que “a internet de antigamente é que era boa” (eu digo isso sempre, desculpa), é importante a gente comentar que embora o conteúdo ruim feito com IA seja virtual, seus impactos na vida são bem reais. Coloquei em tópicos para facilitar a leitura, se liga aqui:
Desinformação acelerada: AI slop se espalha mais rápido do que verificadores de fatos conseguem agir. Aí acontece um ciclo tóxico: informações falsas podem ser citadas por outros sites ou por chatbots de IA, e nesse processo perigam ser tratadas como verdadeiras.
Erosão da confiança: quando as pessoas não conseguem mais distinguir o que é real do que é fabricado, perdem a confiança nas plataformas e na informação em geral, o que enfraquece o debate público e favorece a manipulação.
Degradação cognitiva e “brain rot”: a exposição constante a conteúdos curtos, fragmentados e sem profundidade está associada à redução da capacidade de concentração, empobrecimento do vocabulário e dificuldade de manter atenção em atividades mais longas.
Prejuízos especiais para crianças e adolescentes: estudos apontam que o consumo repetido reforça padrões de pensamento ilógicos, pode prejudicar o raciocínio estruturado, a empatia e a interpretação de contextos reais.
Como combater AI slop, se ele é tão danoso?
A resposta mais realista é uma combinação de letramento digital individual, pressão sobre plataformas, padrões técnicos abertos e regulação gradual — sabendo que o problema vai evoluir junto com as ferramentas.
Do lado individual, desenvolver o hábito de verificar a origem do conteúdo antes de consumir ou compartilhar. Perguntar “quem produziu isso, por que, e com base em quê?” já filtra bastante.
Diversificar as fontes de informação também ajuda muito. Quem consome conteúdo de múltiplas fontes com perspectivas distintas fica menos exposto a bolhas de slop amplificado por algoritmo.