
A escalada da guerra entre Estados Unidos e Irã começou a produzir efeitos mais duradouros nos mercados financeiros globais. Após semanas de relativa resiliência, investidores passaram a rever o otimismo diante do prolongamento do conflito, que já pressiona o preço do petróleo, eleva juros e amplia a volatilidade nas bolsas.
O índice S&P 500 acumulou a quinta semana consecutiva de queda, a pior sequência em cerca de quatro anos. Desde o pico registrado em janeiro, o indicador já recuou quase 9%, caminhando para o pior desempenho mensal desde março de 2025, quando temores inflacionários e tensões comerciais provocaram uma forte correção.
O movimento ocorre em meio à disparada do petróleo, diretamente impactado pela instabilidade no Oriente Médio e pelo risco envolvendo o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do comércio global da commodity. Desde o início do conflito, o barril do tipo Brent crude saltou de cerca de US$ 72 para mais de US$ 110, elevando custos de energia e reacendendo pressões inflacionárias.
A alta persistente do petróleo começa a mudar as expectativas do mercado. Contratos futuros indicam preços mais elevados por mais tempo, o que tende a afetar cadeias produtivas e o consumo. Esse cenário reforça a percepção de que o Federal Reserve deverá manter juros elevados por mais tempo, adiando cortes esperados até então.
O impacto já aparece no mercado de títulos. O rendimento dos Treasuries de dez anos subiu para cerca de 4,4%, no maior avanço mensal desde 2022, pressionando o crédito global. Nos Estados Unidos, as taxas de hipoteca voltaram a subir e se aproximam de 6,5%, encarecendo o financiamento imobiliário.
A aversão ao risco também se espalhou por outros mercados. O índice Nasdaq Composite entrou em território de correção, com queda superior a 10% desde o pico recente. O mesmo movimento foi observado no Dow Jones Industrial Average e no Russell 2000, refletindo perdas disseminadas entre setores.
Fora dos Estados Unidos, o cenário é ainda mais negativo. Bolsas europeias e asiáticas recuaram, pressionadas pela dependência energética da região. O índice pan-europeu Stoxx 600 acumula queda próxima de 10% desde o início da guerra, enquanto mercados como Alemanha e Reino Unido também entraram em correção.
Além da energia, o fortalecimento do dólar amplia as tensões globais, ao encarecer ainda mais o petróleo — negociado na moeda americana — para países importadores.
Apesar das perdas, o mercado segue dividido. Parte dos investidores ainda aposta em uma recuperação rápida, caso haja desescalada do conflito, enquanto outros já consideram que o cenário de petróleo caro e juros elevados pode se prolongar.
A volatilidade diária reflete essa incerteza. As bolsas têm reagido a cada novo desdobramento do conflito, alternando altas e quedas conforme sinais de negociação ou de intensificação militar. Na avaliação de analistas, o mercado se aproxima de um ponto de inflexão, no qual a persistência da guerra pode desencadear ajustes mais profundos nos preços de ativos.
No centro dessa dinâmica está também a condução da política externa dos EUA. Declarações e decisões do presidente Donald Trump, como a extensão de prazos para negociações com o Irã e ameaças de sanções ou ataques, têm provocado reações imediatas nos mercados, reforçando a imprevisibilidade do cenário.