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Foi movimentado. Diversos passos antecederam a saída de Cláudio Castro (PL) do governo do Rio de Janeiro, ocorrida na véspera do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que o tornou inelegível por oito anos. Na segunda-feira 23, pouco antes de subir ao palco da cerimônia solene que marcou sua renúncia, ao garantir aos apoiadores que encerrava o mandato “feliz” e “de cabeça erguida”, o governador assinou um decreto repassando a gestão administrativa do estado para a Casa Civil. Em seguida, apresentou contestações ao Supremo Tribunal Federal (STF) no processo que determina quais regras serão aplicadas para escolher seu sucessor, em um mandato que vigorará apenas até o fim do ano.
Eram lances calculados, em tentativa de assegurar que, mesmo afastado, ele e seu grupo político sigam dando as cartas no Palácio Guanabara. Castro buscou a todo custo contornar a delicada situação jurídica — chegou até a enviar emissários para tomar o pulso dos ministros do TSE —, mas foi convencido por auxiliares a deixar o gabinete e evitar o constrangimento de ser cassado. Ao fazê-lo, lançou no ar uma série de dúvidas, que afetam o destino do terceiro maior colégio eleitoral do país, depois de São Paulo e Minas Gerais.

O impasse merece atenção, e que não se perca o fio da meada diante de tantos nós. Ao abandonar o barco antes do prazo limite para desincompatibilização — 4 de abril —, Castro se tornou o quarto governador fluminense consecutivo a não completar o mandato e o sétimo a ter os direitos políticos suspensos. Com sua saída, quem assumiu temporariamente o cargo foi o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, guindado à cadeira em razão de a linha sucessória ficar vaga de maneira nunca antes vista — o vice eleito, Thiago Pampolha, virou conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi afastado por ordem de Alexandre de Moraes, depois de se tornar suspeito de vazar informações sobre uma operação da Polícia Federal contra o crime organizado.
Devidamente empossado, Couto convocou uma eleição indireta, a ser realizada na Alerj, em até trinta dias, para substituir Castro, conforme determina a Constituição estadual. Antes, porém, viajou a Brasília para se encontrar com os colegas de toga dos tribunais superiores, em duas reuniões marcadas como encaixe de agenda. Com Cármen Lúcia, presidente do TSE, e com Edson Fachin, que comanda o STF, demonstrou preocupação com a situação “excepcional” que poderia “prolongar sua permanência no cargo por tempo indeterminado”.

A compreensível aflição apressou o tempo da política. Antes que os planos da direita para manter-se competitiva na eleição que realmente importa — a de outubro — fossem prejudicados, o PL se articulou em torno do nome do deputado estadual Douglas Ruas, recém-desincompatibilizado da Secretaria de Cidades. Na quinta-feira 26, pela manhã, Guilherme Delaroli, que presidia a Alerj interinamente, cancelou o colégio de líderes e surpreendeu os deputados com uma eleição-relâmpago para a presidência da Casa. Três horas depois, Ruas, na condição de único competidor, foi eleito para o cargo com 45 votos. Vinte e cinco deputados boicotaram a sessão. No comando da Assembleia, Ruas entra para a linha sucessória e se credencia para ser o governador interino, até que nova eleição seja realizada. No final da tarde, nova reviravolta. Uma ações na Justiça protocolada pela oposição alegando que o prazo regimental não foi respeitado e que não houve tempo hábil para apresentar uma candidatura alternativa foi acatada em decisão liminar e a eleição foi suspensa. Os próximos dias prometem novos capítulos. “Essa eleição visa, única e exclusivamente, conquistar o controle da máquina do estado e obter os votos necessários para o mandato-tampão”, protestou Luiz Paulo (PSD), aliado do agora ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), que pretende se lançar candidato no pleito direto, em outubro.
Ruas, de fato, tem a pretensão de se tornar o governador com mandato até o fim do ano, contando com o maciço apoio de seus pares, tendo Nicola Miccione, ex-titular da Casa Civil e homem de confiança de Castro, como vice. Na condição de incumbente, pretende, assim, tentar a reeleição pelo voto popular daqui seis meses. Mais do que obter a poderosa caneta para controlar o orçamento e fazer nomeações, o passo garantiria fama e prestígio ao ainda desconhecido pré-candidato. Há, contudo, um empecilho: uma decisão em caráter liminar de Luiz Fux, do STF, estabeleceu novas regras para a eleição indireta. O ministro embaralhou o jogo ao determinar que a votação seja secreta e que apenas pessoas que não exercem cargos no Executivo há pelo menos seis meses podem se candidatar. “Quem falar que sabe o que vai acontecer está mentindo”, diz o deputado estadual Rodrigo Amorim (União Brasil).

O entendimento de Fux impede que Ruas seja candidato e favorece Eduardo Paes (PSD), que goza de ampla vantagem na corrida eleitoral — o ex-alcaide tem 46% das intenções de voto contra 13% de Ruas, segundo pesquisa Real Time Big Data. Não por acaso, foi justamente o PSD que encaminhou o tema à Justiça, alegando que o regramento previamente aprovado favorece a base aliada. Sem ter um nome natural que atenda todas as condições impostas pelo STF, a principal aposta da coalizão de direita passou a ser a revisão da norma no plenário da Corte. Castro se manifestou no processo argumentando ser impossível aos postulantes fazer um “verdadeiro exercício de futurologia” e se desincompatibilizar seis meses antes de um quadro conturbado e incerto. A Procuradoria-Geral da República se manifestou no mesmo sentido. Preocupado com a situação em seu berço político, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aproveitou o périplo que fazia pelo STF para tratar do relaxamento da prisão do pai e pediu que Fux revisse sua interpretação. O presidente Edson Fachin abriu uma sessão extraordinária no plenário virtual para deliberar sobre o assunto, estabelecendo o prazo para dia 30. Até quinta-feira 26, porém, a situação seguia em aberto.
O futuro de Castro também passou a depender da via jurídica. O ex-governador é favorito para conquistar uma vaga no Senado, mas terá de concorrer sub judice e dependerá da obtenção de uma liminar para ser diplomado, caso seja realmente eleito. Na terça-feira 24, cinco dos sete ministros entenderam que ele e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar abusaram do poder econômico e político ao contratar 27 600 cabos eleitorais em plena campanha de 2022, por meio da UERJ e da Fundação Ceperj. Tudo sem concurso público. “É preciso que haja governantes que queiram gostar do Rio de Janeiro o suficiente para receber uma representação desse povo e honrá-lo com seriedade”, proclamou em seu voto a presidente do TSE, Cármen Lúcia. “Tenho plena convicção de que sempre governei o Rio de Janeiro dentro da legalidade, com responsabilidade e absoluto compromisso com a população”, rebateu o ex-governador, em suas redes sociais, informando que pretende recorrer.

Como o poder não costuma deixar vácuos, a sentença transformou Castro em alvo de fogo amigo. Parte do PL fluminense passou a circular a versão de que a vaga para o Senado seria destinada a Felipe Curi, ex-secretário da Polícia Civil que ganhou notoriedade com o eleitorado conservador ao comandar a operação policial contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão em outubro do ano passado. Um velho ditado político prega que o cenário muda mais rápido que nuvens no céu. Na bela e peculiar paisagem fluminense, os ventos costumam ser mais fortes e sem direção definida. É travessia mais incerta do que alguns sambas-enredos que misturam alhos com bugalhos. Muita água há de rolar no rio de incerteza.
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988