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A guerra vai completar um mês – e provavelmente continuar por algum tempo, considerando-se que o plano de paz proposto por Donald Trump é inaceitável pelos padrões do regime iraniano, mesmo que agora circule o prazo até 14 de maio para encerrar as hostilidades. O debate sobre sua necessidade, justificativa e razoabilidade continua do mesmo tamanho. É tão raro ver um líder político europeu ponderado como Mark Rutte fazer sua defesa que vale recuperar seus argumentos.

Em favor da riqueza do debate, seguem-se os principais pontos defendidos pelo ex-primeiro-ministro holandês, um político de centro-direita light colocado na desconfortável posição de ser secretário-geral da Otan na era Trump. O presidente americano famosamente desmerece a aliança político-militar que tanto poder gerou aos Estados Unidos, mas dá ouvidos a Rutte – e adorou quando o holandês o chamou jocosamente de “papai”, por colocar ordem na casa e arrancar contribuições maiores para o orçamento da organização.

Rutte foi coberto de críticas pela brincadeira, inclusive pela conotação sexual do termo, evocativo de homens que bancam ou exploram mulheres. As sessões de flagelação aumentaram depois que, contrariando a maioria total dos líderes europeus fora do aspecto da ultradireita, ele deu uma entrevista à CBS com os seguintes argumentos.

“O que o presidente está fazendo, tirando a capacidade balística, tirando a capacidade nuclear do Irã, é crucial. Se o Irã tiver a capacidade nuclear, juntamente com a capacidade de mísseis, será uma ameaça existencial direta para Israel, para a região, para a Europa, para a estabilidade do mundo. Eu vi as pesquisas, mas espero que o povo americano fique do lado dele porque está tornando o mundo mais seguro”.

“Os países europeus precisavam de algumas semanas para se organizar. Mas agora 22 países, a maioria da Otan, mas também Japão, Coreia, Austrália, Nova Zelândia, Bahrain, EAU, se uniram para responder basicamente três perguntas: o que precisamos? Quando precisamos? E onde precisamos? Assim temos a resposta ao apelo do presidente para garantir a livre navegação no Estreito de Ormuz. Ela é crucial para a economia mundial”.

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Contrastem-se estas palavras ao que disse o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius: “Ninguém nos consultou com antecedência. Não é uma guerra nossa. Não vamos ser sugados por ela. Não houve consulta, não há estratégia, não existe um objetivo claro e o pior, do meu ponto de vista, é que não há uma estratégia de saída”.

“Para deixar bem claro, essa guerra é uma catástrofe para as economias mundiais”. Em suma: uma pancadaria como raramente se vê por parte da cautelosa Alemanha.

MUDANÇAS TECTÔNICAS

Nesse ambiente de alta hostilidade e até de fúria em relação a Trump, Mark Rutte introduz um grau de razoabilidade que poucos políticos têm. Sua facilidade para argumentar com Trump também está ajudando a Otan a sobreviver à volatilidade do temperamento do presidente americano, que não leva em conta como a aliança foi fundamental para projetar os Estados Unidos – e derrotar pacificamente o comunismo. Trump tende a ver só o tamanho da conta e não deixa de ter razão em reclamar que os países europeus se acostumaram a ter sua defesa bancada pelos Estados Unidos.

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Esta é uma das várias mudanças em curso no mundo, contribuindo para a impressão de que a ordem do pós-guerra passa por mudanças tectônicas.

Muitos europeus ficaram chocados pelos ataques ao Irã porque um dos fundamentos dessa ordem é o princípio de que guerras exigem consensos com base nas leis internacionais. Está Mark Rutte certo ao dizer que o Irã é um caso único, uma exceção sem comparações, por estar próximo do limiar nuclear e constituir assim uma fonte inesgotável de perigos para o mundo?

Ironicamente, a atitude de Rutte hoje exige coragem ao contrariar fundamentalmente os seus pares. Uma posição inesperada de um político criado no consenso e na discrição – tanto que ergueu uma barreira intransponível a sua vida particular, ignorando solenemente os boatos de que é gay porque vive sozinho e não tem relacionamentos conhecidos.

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ARMÁRIO IMAGINÁRIO

Note-se que, na ultraliberal Holanda, ele poderia ter até mais popularidade se saísse do armário, se é que está dentro dele. Rutte é tão imune a intimidades que sua biógrafa fez uma constatação impressionante: de todos os amigos consultados para o livro, nenhum jamais havia frequentado a casa do ex-primeiro-ministro.

Estará ele certo ao defender a exceção iraniana? Vale a pena arriscar um ambiente de alta instabilidade como o do momento em troca de garantir que um regime dominado por uma ideologia religiosa fanática e radical não terá acesso a armas nucleares? Ou sequer isso será alcançado, provocando não só uma profunda desmoralização dos Estados Unidos, como uma espécie de rebaixamento estratégico que altera todo o equilíbrio mundial?

Na época em que estava ativo na política holandesa, Mark Rutte era chamado de “Senhor Normal”, por características como a previsibilidade e até a falta de carisma – em especial se comparado a seu opositor à direita, o incendiário Geert Wilders.

Talvez o mundo esteja precisando mais do que nunca do “Senhor Normal” e de sua capacidade de dialogar com Trump, considerando-se que muito poucos estão fazendo isso.



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