
Era 1984 quando um jovem brasileiro de 24 anos sentou pela primeira vez no cockpit de um carro de Fórmula 1. O piloto era Ayrton Senna. O carro, um modesto Toleman TG183B de uma equipe pequena e sem grandes recursos. Quarenta anos depois, esse mesmo veículo será leiloado por até 3,8 milhões de euros — e a história que ele carrega vale muito mais do que qualquer cifra.
A venda acontece no dia 25 de abril, em Mônaco, durante um evento no Grimaldi Fórum, conduzida pela Sotheby’s. O chassi TG183B-05 — identificação técnica do carro — tem estimativa de arrematação entre 2,8 e 3,8 milhões de euros, o equivalente a 17 milhões e 23 milhões de reais. O veículo está em estado excepcional de conservação, com detalhes originais da época: radiadores acoplados à asa dianteira, asa traseira dupla e o motor Hart 415T 1.5 turbo de fábrica.
Não é qualquer relíquia. É o carro com o qual Senna estreou na F1, no GP do Brasil em Interlagos, e com o qual marcou seu primeiro ponto na categoria — ao cruzar em sexto no GP da África do Sul, em Kyalami.
O começo de tudo
Quando chegou à Fórmula 1, Senna foi parar na Toleman, uma equipe que disputava espaço na sombra das gigantes do paddock. Ao lado do companheiro Johnny Cecotto, ele iniciou a temporada de 1984 com o TG183B — o modelo antigo, enquanto o novo chassi ainda não estava pronto. Mesmo assim, não demorou para mostrar por que estava ali: pontuou na África do Sul e na Bélgica ainda com o carro defasado.
Com a chegada do TG184, equipado com melhorias aerodinâmicas e pneus Michelin, Senna deu ao mundo um espetáculo que ninguém esqueceu.
Largando da 13ª posição, sob chuva intensa nas ruas do Principado, Senna protagonizou uma das corridas mais icônicas da história da Fórmula 1. Ultrapassou campeões consagrados, engoliu o pelotão e foi caçando, volta a volta, o líder Alain Prost — chegando a descontar três segundos por giro da poderosa McLaren do francês.
A corrida, porém, foi interrompida de forma polêmica na 31ª volta pelo diretor de prova Jacky Ickx, privando Senna de uma vitória que parecia inevitável. O resultado oficial foi um segundo lugar — mas o que ficou para a história foi muito maior.
Na transmissão britânica, o ex-campeão James Hunt resumiu o que todos estavam sentindo: estava claro que o mundo acabava de conhecer um talento verdadeiramente excepcional nas corridas de Grand Prix.
Uma temporada de promessas
O restante de 1984 confirmou o que Mônaco havia anunciado. Em Brands Hatch, palco do GP da Inglaterra, Senna registrou o melhor tempo nos treinos livres logo após um grave acidente de Cecotto — e terminou a corrida em terceiro. Fechou o ano com mais um pódio em Portugal.
A relação com a Toleman, no entanto, foi tão intensa quanto breve. Antes do fim da temporada, Senna assinou secretamente com a Lotus para 1985. A equipe, ao descobrir, o suspendeu do GP da Itália. A parceria chegava ao fim, mas o recado já havia sido dado ao mundo.