O governo federal decidiu zerar o imposto de importação de 970 itens de bens de capital e informática, em um movimento que combina política industrial com tentativa de aliviar pressões inflacionárias em setores estratégicos.

A decisão foi tomada pelo Camex, que reúne dez ministérios, sob o argumento de que os produtos não têm fabricação nacional ou são produzidos em volume insuficiente. Do total, 191 itens terão isenção temporária.

A lista inclui máquinas, equipamentos industriais e componentes tecnológicos essenciais para cadeias produtivas — um gargalo recorrente da indústria brasileira. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria, o custo de investimento produtivo no país pode ser até 30% maior do que em economias comparáveis, em grande parte por conta de impostos sobre equipamentos importados.

A medida também alcança medicamentos para doenças crônicas como diabetes, Alzheimer, Parkinson e esquizofrenia, além de insumos agrícolas e industriais. O impacto potencial é duplo: reduzir custos para empresas e aliviar preços ao consumidor final, em um momento de pressão global sobre cadeias produtivas, agravada pela guerra no Oriente Médio e pela alta de energia.

O movimento ocorre após um recuo recente do governo. Em fevereiro, a mesma Camex elevou tarifas de itens eletrônicos, como celulares e notebooks, com potencial de arrecadação estimado entre R$ 14 bilhões e R$ 20 bilhões. A reação negativa do mercado e de consumidores levou à reversão parcial da medida, restabelecendo alíquotas anteriores para produtos considerados sensíveis.

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Ao mesmo tempo em que reduz tarifas, o governo endureceu em outra frente: aplicou medidas antidumping por cinco anos contra importações de etanolamina da China e resinas plásticas dos Estados Unidos e Canadá, numa tentativa de proteger a indústria local.

A estratégia reflete um equilíbrio delicado entre abertura comercial seletiva e proteção setorial. De um lado, o Brasil tenta destravar investimentos e aumentar competitividade industrial; de outro, busca preservar segmentos expostos à concorrência externa.

O pano de fundo é um cenário internacional mais adverso. Com cadeias logísticas pressionadas e custos de insumos em alta, economias emergentes têm recorrido a reduções tarifárias pontuais para conter repasses inflacionários — movimento semelhante ao adotado por países como México e Índia nos últimos anos.

No Brasil, o efeito prático dependerá da velocidade de repasse desses cortes aos preços e da capacidade da indústria de transformar insumos mais baratos em aumento de produção — um desafio histórico em um ambiente ainda marcado por juros elevados e incerteza global.



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