Ler Resumo

Houve um tempo em que os vinhos uruguaios eram mais conhecidos pela potência do que pela qualidade e penetração internacional. Há quinze anos, a uva mais querida do país era a Cabernet Sauvignon, feita em estilo pesado à moda dos Malbecs argentinos. “Quando a região entendeu que não precisava imitar a Argentina e que devia ser Uruguai — tudo mudou”,  contou à coluna AL VINO Germán Bruzzone, enólogo da Bodega Garzón. Vinícola mais famosa do Uruguai, ela teve um papel fundamental nessa mudança de fórmula.

Pude atestar essa transformação em uma visita recente à Garzón. Depois de provar 18 rótulos na Bodega, um dia antes da badalada festa da vindima, tema de uma outra coluna, ao lado de jornalistas ingleses, americanos, alemães e brasileiros à mesa, ouvi alguém soltar, admirada: “Nem parece Uruguai”. A frase poderia soar como provocação, mas o fato é que os uruguaios se orgulham desse tipo de constatação. Esse orgulho é ainda maior na Garzón. “Nossa vinícola não construiu o Uruguai, mas o posicionou no mapa mundial”, afirmou Germán Bruzzone.

Mudou tanto que os consumidores acostumados ao tinto encorpado descobriram o prazer do Pinot Noir rosé. Atualmente, metade do Albariño premiado da casa fica em território nacional. “Quando cheguei aqui não havia nenhum Albariño uruguaio, hoje são mais de 30 vinícolas produzindo com essa uva”, contou-me o italiano Alberto Antonini, enólogo consultor do projeto. O Petit Clos 2025, inclusive, acaba de receber 95 pontos do Descorchados, o mais importante guia da América Latina, que será lançado na próxima semana. “Se você construir, eles virão; se você vinificar bem, eles vão beber — e pagar”, resume Christian Wylie, o chileno que teve a ousadia de levar o Balasto à Place de Bordeaux em 2017, parafraseando um ditado romano.

Tannat, uva-símbolo do Uruguai, também aprendeu a leveza. Sob a mão de Bruzzoni e do consultor Alberto Antonini, o que antes era sinônimo de tanino e corpo virou vinhos de estrutura mais fluida, para usar uma expressão em voga no mundo do vinho. Continua poderoso sim, e estruturado — mas bem mais fácil de tomar à mesa.

O efeito foi econômico e cultural: ao contrário de muitos projetos premium que vivem apenas dos Estados Unidos, os maiores mercados da Garzón hoje são, pela ordem, Uruguai, Brasil e Estados Unidos — e mais 60 países que brindam com seus rótulos pelo mundo.

Continua após a publicidade

Quando alguém diz que a Garzón “não parece Uruguai”, Wylie não se ofende: “Para mim é um elogio. Foi preciso audácia e visão de longo prazo — de Bulgheroni, de Antonini, de toda a equipe — para chegar aqui.”

Hoje dá para tomar um Albariño, um rosé e, sim, até um Balasto listado na Place de Bordeaux — de frente pro Atlântico em Punta Del Este. Para quem acha que isso “não parece Uruguai”, talvez seja bom reformular a frase: continua sendo o Uruguai,  com sotaque próprio, mas em uma versão mais moderna e saborosa.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *