
Um relatório divulgado nesta quarta-feira revela a rotina de trabalhadores norte-coreanos enviados à Rússia e aponta um cenário marcado por jornadas exaustivas, vigilância constante e retenção de salários. Segundo a organização Global Rights Compliance, sediada na Holanda, parte desses trabalhadores recebe o equivalente a apenas US$ 10 por mês.
O documento se baseia em entrevistas feitas com 21 norte-coreanos que atuaram em canteiros de obras no país. Os relatos indicam turnos que chegam a 14 horas diárias, ao longo de praticamente todo o ano. Um dos entrevistados, de 50 anos, descreveu a experiência como desumanizante e afirmou que sentia que suas vidas não tinham valor:
“Senti que eles achavam que nossas vidas não valiam mais do que as de insetos”, disse um trabalhador de 50 anos em entrevista à organização.
O envio de mão de obra norte-coreana ao exterior contraria as sanções impostas pela Organização das Nações Unidas, que proíbem a concessão de permissões de trabalho a cidadãos do país e determinam o retorno daqueles que obtêm renda fora de suas fronteiras. Ainda assim, estimativas da própria ONU indicavam, em 2024, a presença de mais de dez mil trabalhadores norte-coreanos em cerca de 40 países.
De acordo com o relatório, o governo da Coreia do Norte continua utilizando esse tipo de envio como forma de captar divisas, com arrecadação anual de centenas de milhões de dólares.
As condições de vida descritas pelos trabalhadores são precárias. Muitos relataram que viviam em contêineres adaptados como dormitórios, sem aquecimento, compartilhados por até 20 pessoas. Há registros de infestações de insetos e acesso limitado a itens básicos de higiene, com alguns afirmando que podiam tomar banho apenas uma ou duas vezes por ano.
A jornada de trabalho frequentemente ultrapassa 12h e pode chegar a 16h, com poucos ou nenhum dia de descanso. Além disso, os trabalhadores afirmaram ser monitorados de forma constante por supervisores e até por colegas. Um deles relatou que qualquer tentativa de acessar conteúdos estrangeiros poderia resultar em punições severas, incluindo o retorno forçado ao país de origem para interrogatório.
O impacto psicológico também aparece nos depoimentos. Um trabalhador de 64 anos contou viver sob a sensação permanente de estar sendo observado:
“Essa ansiedade psicológica é a parte mais difícil”.
O relatório reúne ainda denúncias de agressões físicas e ameaças dirigidas às famílias dos trabalhadores que permanecem na Coreia do Norte. Há relatos de espancamentos e de pessoas obrigadas a continuar trabalhando mesmo após sofrer ferimentos. A Global Rights Compliance, responsável pelo levantamento, avalia que as condições se enquadram na definição de trabalho forçado da Organização Internacional do Trabalho.
Mesmo diante desse cenário, muitos norte-coreanos buscam vagas no exterior na tentativa de ajudar suas famílias. O estudo aponta, no entanto, que o processo já começa com exploração: para garantir uma vaga, trabalhadores relatam o pagamento de propinas e, ao chegar ao destino, passam a enfrentar cotas mensais obrigatórias que variam entre US$ 400 e US$ 750.
Embora o salário médio declarado seja de cerca de US$ 800 por mês, descontos relacionados a custos de viagem, alimentação e taxas impostas pelo Estado reduzem drasticamente o valor recebido. Em alguns casos, o montante final fica próximo de US$ 10.
As metas financeiras impostas precisam ser cumpridas a qualquer custo. Dívidas são transferidas para períodos seguintes, o que leva trabalhadores a aceitar atividades paralelas arriscadas. O não cumprimento das cotas pode impedir futuras oportunidades no exterior e, em alguns casos, resulta em cobranças feitas diretamente às famílias, com relatos de intimidação e violência.
A mobilidade desses trabalhadores também é limitada. Passaportes são confiscados, comunicações são monitoradas e o acesso a telefones é restrito. Muitos afirmam sequer saber o nome das empresas para as quais prestam serviço, o que dificulta a responsabilização e favorece a evasão de sanções.
Segundo o relatório, parte desses trabalhadores foi enviada para suprir a escassez de mão de obra na Rússia na guerra contra a Ucrânia.
A Global Rights Compliance defende que governos e organismos internacionais ampliem a fiscalização e adotem medidas de proteção imediata:
“É necessário garantir condições básicas, como jornadas razoáveis, pagamento integral e mecanismos seguros para que esses trabalhadores possam deixar situações de exploração sem sofrer represálias”, disse Kim Ye-ji, assessora da entidade para assuntos da Coreia do Norte.