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“Sinceras condolências”, nosso “amado líder”, um “grande mártir” e “tragam suas famílias” para uma vigília em honra a ele. Já deu para perceber que estamos falando de Ali Khamenei, morto por um bombardeio israelense no sábado, mas as repulsivas homenagens não partem de seus círculos no Irã e sim de estudantes que aproveitam as liberdades e o conforto de um país como a Inglaterra para louvar um homem sanguinário a quem coube, em última instância, endossar a repressão que matou mais de trinta mil iranianos que ousaram protestar em janeiro.
São estudantes em sua maioria ligados a uma organização xiita, a seita predominante no Irã, mas contam também com o apoio de organizações estudantis em faculdades de elite como a Universidade de Edimburgo, Cambridge e a UCL – esta com o aviso de que “estudantes têm o direito, moralmente e legalmente, de ficar de luto, de se expressar e de se organizar dentro dos parâmetros da lei”.
Legalmente, sem dúvida. Mas moralmente é repugnante e só encontra explicação na alucinada aliança entre as esquerdas e o islamismo radical, motivo do silêncio generalizado sobre as práticas hediondas contra mulheres iranianas, espancadas por deixar uma mecha de cabelo aparecer ou dirigir um carro.
As louvações estudantis contrastam com manifestações que, obviamente sob sigilo, partem de dentro do Irã. O canal France 24 levantou alguns testemunhos significativos, principalmente numa hora em que o ódio a Donald Trump parece propiciar a condescendência com o regime teocrático.
GUERRA COMO ÚNICA OPÇÃO
“Quando os ataques começaram, eu estava no trabalho. Muitas pessoas praticamente estavam esperando por eles, por causa do massacre que havia acontecido. Nesse sentido, as pessoas ficaram felizes, ao contrário da última vez em que Israel atacou, em junho de 2025”, disse um profissional na faixa dos 40 anos. “Quando saiu a notícia de que Khamenei estava morto, o bairro todo celebrou. Todo mundo ficou feliz”.
Ele advertiu, realisticamente, que a situação pode mudar se as pessoas comuns começarem a ser atingidas, como aconteceu com as meninas de uma escola em Minab, bombardeada por engano num caso ainda indefinido, mas acrescentou: “Para conquistarmos a liberdade, a guerra é a única opção. Os iranianos tentaram outras, mas elas não funcionaram”.
Outro depoimento que vale a pena ouvir, de uma mulher de Teerã: “Estou pronta para morrer. Obviamente, preferiria continuar viva para aproveitar a boa vida que teremos no Irã depois da queda da República Islâmica. Mas não podemos chamar de vida o que temos no momento”.
São palavras poderosas pela simplicidade e também pela normalidade dos iranianos anônimos que as disseram. Pessoas comuns, em circunstâncias altamente incomuns.
ALIADOS ENVENENADOS
A guerra é incrivelmente complicada, inclusive por não seguir os parâmetros do direito internacional de risco de ataque iminente? Sem dúvida nenhuma. Mas onde estavam os especialistas no assunto que brotam agora em toda parte quando os iranianos estavam sendo brutalmente massacrados nas ruas e até fuzilados em hospitais?
A discussão sobre sua justiça ou necessidade está envenenando as relações entre os aliados ocidentais. Trump bateu de frente com o primeiro-ministro da Espanha, o socialista Pedro Sánchez, que deixou à vista de todos o que prefere – e o que prefere é o regime iraniano. Nas suas palavras: “Não vamos ser cúmplices de algo mau para o mundo por medo de represálias de alguém”.
Ou seja, é mau enfrentar a perversidade intrínseca do regime dos aiatolás.
Trump ficou furioso com a proibição do uso de bases americanas na Espanha por aviões que participariam do ataque e disse que os Estados Unidos não precisam do país “para nada”. Prometeu um boicote comercial, condenado por Emmanuel Macron, cada vez mais assumido em sua posição antiamericana, depois de um ano tentando tourear Trump.
CUSTO PARA OS ALIADOS
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também ficou numa posição desconfortável no muro depois que Trump observou ferinamente que “não estamos tratando com nenhum Winston Churchill aqui”. Starmer disse que o presidente americano não tem um plano “viável” para o Irã, seja lá o que isso signifique. O que ele consideraria viável, um ataque de três dias, de trinta ou de nenhum?
Mas é claro que a guerra está provocando um estresse enorme entre os aliados ocidentais – exatamente o que o regime iraniano deseja, mesmo que ao custo de insanidades como disparar um míssil contra a Turquia, um país que poderia ficar de seu lado ou ser um mediador importante. A situação dos integrantes do regime é considerada a primeira em que um governo disfuncional está no poder enquanto seus membros vivem sob uma saraivada de bombardeiros desde a Berlim de 1945. Por falar em II Guerra, também foi a primeira vez que um torpedo disparado de submarino afundou uma fragata inimiga, como a embarcação iraniana atingida nas proximidades do Sri Lanka.
São desdobramentos que acrescentam camadas de complexidade a uma situação já de grande emergência. A confusão que causam sobre quem está do lado de quem só não pode ofuscar a claridade moral sobre qual é o beligerante realmente perverso e sem chances de redenção.
Os estudantes que louvam Khamenei e companhia partilham da mesma degradação. Seus colegas no Irã foram massacrados por achar que poderiam expressar opiniões contra o regime. Não podemos esquecer quem é quem.