
Ler Resumo
Todo regime autoritário é forte – até que cai. Foi assim com a União Soviética, a potência comunista desmanchada sem violência, e com a Síria, onde, com a ajuda do Irã, Bashar Assad parecia sobreviver a tudo. Hoje ele vive na sombra do exílio em Moscou. Note-se que todos os prodigiosos recursos da CIA e outros serviços de inteligência dos Estados Unidos não previram essas derrocadas. Poderia o mesmo acontecer com o Irã, com tantas e tão poderosas forças construídas ao longo de 47 anos de regime teocrático?
A reação pálida das forças do regime iraniano, dirigidas contra alvos civis em Israel e em cinco países árabes, incluindo prédios residenciais, aeroportos e hotéis, mostra um estado de extrema vulnerabilidade diante do poderio bélico e do espetacular trabalho de inteligência dos Estados Unidos e de Israel. A derrubada de “vários” caças F-15 no Kuwait, com as tripulações ejetadas, foi o feito mais significativo até agora. Note-se que só de variações desse modelo, os Estados Unidos têm 334 aparelhos.
Como não há acesso à mídia estrangeira, só alguns vídeos vazados mostram comemorações, gritos emocionados e até a derrubada de um cartaz com a efígie do aiatolá Khamenei, cirurgicamente despachado no sábado para o Jahannam, como os xiitas chamam o inferno. As celebrações das comunidades exiladas evidentemente aparecem mais, apesar do estudado distanciamento dos órgãos da mídia que estão sufocados pela raiva diante do sucesso da operação desfechada por Donald Trump.
É preciso um certo distanciamento porque as emoções são fortes em momentos assim, mas é impossível não ver que o poderoso Irã que desencadearia represálias capazes de paralisar o mundo tem se mostrado um tigre de papel, mesmo com as perdas de nove vidas num ataque contra Beit Shemesh, em Israel, e de três militares americanos em local não informado. Foram falhas raras nos sistemas israelense e americano de defesa. Podem e provavelmente vão acontecer outras, mas são episódicas, não sistemáticas. O Irã ruge muito e faz muito pouco.
FOGUEIRA DA AUTODESTRUIÇÃO
Trump já está se jactando: “Posso ir em frente e tomar a coisa toda ou acabar com tudo em dois ou três dias e dizer para os iranianos ‘Vejo vocês dentro de alguns anos se começarem a reconstruir (o programa nuclear bélico)”.
Na verdade, ele não pode caso queira ser coerente com o projeto de abrir caminho, através da arrasadora operação Força Épica, para que os iranianos, como disse, “assumam seu governo”.
Coerência, como sabemos, não é o forte de Trump. A intervenção no Irã é tudo o que ele disse que não pretendia fazer – mas também é uma interferência diferente, sem forças terrestres, com foco na eliminação dos sistemas de defesa e também na decapitação em massa dos nomes mais poderosos do regime – junto com Khamenei, foram nada menos que 48 outros figurões, rastreados pela CIA e pelo Mossad em locais adjacentes num bunker considerado seguro.
É claro que há outros para tomar seus lugares. O Irã é um país grande, com 92 milhões de habitantes, não um Hezbollah que Israel deixou sem rumo ao usar a mesma tática de eliminação de capacidade de mísseis e decapitação da liderança.
Poderiam os novos ocupantes da cúpula do poder dar uma de venezuelanos e propor cumprir pelo menos uma parte das exigências dos Estados Unidos, em especial no que tange ao programa nuclear bélico? Ou estão todos dispostos a se incinerar na fogueira da autodestruição?
‘I LOVE TRUMP’
A opção suicida foi claramente tomada pela cúpula agora decapitada, incluindo a inexplicável reunião de todos no mesmo lugar. Segundo fontes citadas pelo Washington Post, Khamenei e seus asseclas pretendiam ir mais adiante e tomar a iniciativa de desfechar um ataque contra forças americanas. Esta, segundo o jornal, foi a argumentação do todo-poderoso da Arábia Saudita, Mohammed Bin Salman. Note-se que ele havia feito uma aproximação com o Irã, apesar do ódio mútuo – agravado pelo fato de que cada país se considera o porta-voz mais legítimo da religião islâmica, os teocratas iranianos pela vertente xiita, os sauditas pelo lado sunita e como berço original do profeta Maomé.
O desespero do regime iraniano pode ser visto em outro ataque fracassado, o de dois mísseis contra Chipre – felizmente, caíram no mar. Qual o interesse do Irã em arrastar para o conflito um país que é membro da União Europeia? Imaginam assustar os europeus até que se voltem contra Trump? Não tem fôlego para isso.
Terá fôlego para reprimir os iranianos que, como deixaram alguns adolescentes registrados, gritam “I love Trump”?
OPORTUNIDADE APROVEITADA
O trauma dos trinta mil mortos nos protestos de janeiro é enorme, mas os foguetes explodindo os bunkers dos poderosos são um incentivo, jamais visto no Irã, a que a população se arrisque a virar o jogo.
Faltam, evidentemente, líderes oposicionistas, pois o regime foi extremamente eficiente em eliminar vozes dissidentes. Exatamente como aconteceu na União Soviética e na Síria.
Pelo menos há mais um livramento a ser comemorado pelos iranianos que execram o regime, a morte de Mahmoud Ahmadinejad, o ex-presidente que era um antissemita tosco e sem disfarces. Palácios de Brasília devem estar de luto. O ser maligno estava em prisão domiciliar, sabe-se agora que ele passou a outro plano, por conspiração para um golpe contra o regime, tido por conciliador demais.
Ahmadinejad não tinha mais nenhuma importância, mas Israel, cuja eliminação ele propugnava reiteradamente, aproveitou a oportunidade. Vai que Trump realmente faça o imponderável e acabe tudo “em dois ou três dias”? Eles “querem conversar”, disse o presidente. O Irã negou: não aceita negociações. Ainda há bastante espaço para as coisas piorarem.