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Em sintonia com a imensidão e o silêncio do espaço sideral, a Starlink, do bilionário Elon Musk, avança rapidamente — sem lojas, nem equipes ostensivas ou barulho — sobre o mercado brasileiro de internet por satélite. A ordem é crescer e permanecer quase invisível, salvo pelos receptores quadrangulares que se multiplicam em áreas remotas do país. Do ponto de vista formal, a empresa opera com dois CNPJs regulares e um único representante legal, Rodrigo Sanchez Ruiz Dias, que não participa de negociações com clientes nem tem presença conhecida no mercado. A estratégia comercial é simples: contratos são fechados pela plataforma on-line e, de sua base no exterior, a companhia calibra as conexões com uma constelação própria de satélites de baixa órbita. A combinação de discrição operacional e expansão acelerada, por ora, tem funcionado.

Graças a uma autorização concedida pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) no ano passado, a companhia de Musk recebeu sinal verde para lançar e operar 7 500 satélites de segunda geração com cobertura sobre o Brasil até 2027. Com isso, a rede autorizada a atuar pairando no território brasileiro alcançará 11 900 satélites aptos a interagir com usuários no país. Para obter a nova chancela e o direito de exploração, a Starlink pagou 102 000 reais — um valor irrisório diante da escala do negócio e um lembrete de que, ao menos do ponto de vista regulatório, não custa caro ocupar posições fora da Terra.

Receptor de sinal em casa no Brasil: empresa tem 327 000 clientes no país
Receptor de sinal em casa no Brasil: empresa tem 327 000 clientes no país (Tarcisio Schnaider/Getty Images)

A Starlink avança em velocidade de foguete no Brasil. Em 2025, passou a deter 58% do mercado brasileiro de internet por satélite, com 327 000 assinantes, após crescimento de mais de 140% no ano anterior. A liderança é folgada: a segunda colocada, a Hughesnet — que carrega o sobrenome de Howard Hughes, o excêntrico bilionário americano que construiu um império ligado à indústria de defesa e aviação —, tem pouco mais de 20% do mercado.

Essa distância ajuda a explicar por que a concorrência pena. O governo brasileiro assinou um memorando de entendimento com a Telebras para desenvolver satélites de média órbita, mas o desnível tecnológico em relação à Starlink, que já opera com satélites de segunda geração, é difícil de ser superado. De pequeno porte, os aparelhos da Starlink se posicionam a 550 quilômetros da Terra, ou seja, em órbita baixa. Já os sistemas dos concorrentes, como a Hughesnet e a terceira colocada, a também americana Viasat, usam satélites geoestacionários, à altitude de 36 000 quilômetros. Na prática, a distância menor reduz a latência (tempo de resposta) e melhora a estabilidade da conexão, o que se traduz em navegação mais rápida e menos oscilações no serviço.

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A vantagem, porém, tem uma contrapartida: para entregar desempenho, a Starlink depende de uma frota gigantesca em órbita baixa — e é justamente essa escala que concentra os riscos. Segundo o pesquisador americano Jonathan McDowell, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, de um a dois satélites da Starlink reentram na atmosfera por dia. Recentemente, a China levou o tema a fóruns internacionais e sinalizou que pretende pressionar por regras de segurança mais rígidas. Como cada satélite tem vida útil estimada em cinco anos, a conta é simples: milhares terão de ser desorbitados e voltarão a cruzar a atmosfera até o fim da década. Desde 2019, a SpaceX — outro negócio de Musk — lançou mais de 8 000 satélites Starlink, e ao menos 2 000 apenas em 2025. A meta é chegar a uma rede global com mais de 30 000 unidades em órbita baixa. A receptividade da Starlink no Brasil tem uma explicação óbvia. “A capacidade de fornecer internet em regiões onde outras operadoras falham é um dos principais fatores que impulsionam a popularidade da empresa”, diz Wagner Becker, especialista em telecomunicações com trinta anos de experiência no mercado. “As concorrentes precisam repensar estratégias e oferecer serviços mais competitivos.”

arte starlink

O boca a boca também virou um combustível importante para o avanço da companhia, funcionando como uma arma de propaganda em nichos em que conectividade sempre foi um gargalo. O consultor náutico Carlos Ranieri, do Litoral Sul de São Paulo, diz que o efeito foi imediato em seu setor. “Depois que instalei o kit para navegação da Starlink no barco que estou modernizando, recebi pelo menos cinco encomendas para fazer suportes para amigos que também passaram a usar a mesma marca para cruzar longas distâncias”, diz. Ranieri cita ainda o fator custo como mais um empurrão para a troca de tecnologia. “Os barcos grandes ainda saem dos estaleiros com radares que podem custar até 30 000 dólares cada um, mas já há testes entre a Starlink e a Apple para conexão móvel entre satélites e iPhones, que vão pulverizar esse modelo caro e antigo.”

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Os exemplos se sucedem. Sem grande alarde — e praticamente sem intermediação humana —, o tradicional Canal Rural, especializado em transmissões de TV e cobertura de notícias e eventos do agronegócio, substituiu suas conexões por um pacote corporativo da Starlink. Internamente, a avaliação técnica é positiva. “Nossas equipes ganharam mais autonomia em campo, reduzindo a dependência de estruturas locais de conexão e ampliando a capacidade de fazer entradas ao vivo na programação”, disse a emissora em nota.

Ilustração com equipamentos da Starlink: assinatura barata
Ilustração com equipamentos da Starlink: assinatura barata (Mark Garlick/SPL/Getty Images)

A trajetória fulminante da Starlink no Brasil começou em 2022, quando a companhia obteve autorização de funcionamento na Anatel. Em maio daquele ano, durante um evento em São Paulo, o então presidente Jair Bolsonaro classificou Musk como um “líder da liberdade”. Logo na largada, a empresa posicionou mais de 4 000 satélites com cobertura sobre o país e anunciou a oferta de conexões para escolas públicas na Amazônia, a um custo médio de 1 500 reais por link instalado. Hoje, mantém um contrato de vulto com o Exército e oferece planos residenciais com mensalidades de cerca de 200 reais.

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Uma pesquisa da Embrapa, concluída no ano passado, estimou que menos da metade dos imóveis rurais do estado de São Paulo, o mais desenvolvido do país, é atendida por conexão 4G via antenas. O dado escancara o tamanho do vazio de cobertura e, por consequência, o espaço para a ampliação da internet por satélite — que, em muitas áreas, entrega serviço mais estável e com melhor relação custo-­benefício do que as alternativas terrestres. No mercado, há dúvidas sobre até que ponto a Starlink já opera com lucro no Brasil, dado o nível de preços que pratica. É quase unânime, porém, a leitura de que a companhia do homem mais rico do mundo está comprando algo ainda mais valioso: confiança. Para ela, o limite de expansão, ao menos por enquanto, vai muito além do espaço sideral.

Publicado em VEJA, fevereiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 23



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