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Ao longo da história, a distância territorial e a ausência de fronteiras entre Brasil e Chile contribuíram para que os laços culturais e de amizade entre os dois países se resumissem a encontros futebolísticos — nem sempre amistosos — das duas seleções nacionais. Recentemente, porém, a lacuna tem sido substituída por calorosas interações entre brasileiros e chilenos nos principais pontos turísticos das bandas de cá. Agora, no verão de 2026, é comum cruzar com visitantes que deixaram a estreita faixa de território incrustada entre o gelado Oceano Pacífico e a inóspita Cordilheira dos Andes para aportar em paragens tropicais, principalmente no Rio de Janeiro. Além das belezas naturais, acessíveis por um preço que cabe no bolso, essa turma vem atrás daquilo que sobra por aqui: receptividade, descontração e simpatia.
Os argentinos ainda dominam o ranking de passeantes forasteiros, mas nenhum outro povo demonstra interesse tão crescente pelo Brasil quanto os chilenos. Entre 2022 e 2025, eles quase triplicaram o número de visitas, batendo 800 000 viajantes no ano passado e deixando para trás os americanos, que historicamente ocupavam o segundo lugar. O fenômeno contribuiu muito para que o país alcançasse a marca histórica de recepção de 9,28 milhões de turistas estrangeiros, 37% a mais que em 2024. Os cartões-postais são atraentes, claro, mas o câmbio favorável tem feito a diferença. Hospedagem, transporte e comida são baratos para os chilenos — a pizza de um restaurante renomado no Rio ou São Paulo sai quase pela metade do preço praticado em Santiago. A quantidade de voos entre os dois países também se multiplicou. Atualmente, quinze rotas ligam a capital do Chile a nove capitais brasileiras, um crescimento de 50% em relação ao ano anterior. A chegada de companhias low-cost jogou o preço das passagens para baixo e, com antecedência, é possível adquirir um bilhete por menos de 400 reais.

Um termômetro a evidenciar na prática o aquecimento dessa relação é a profusão de bandeiras do Chile que passaram a ser hasteadas nas barracas e quiosques de praias cariocas. O pavilhão estrelado é uma espécie de senha para sinalizar que os vendedores se renderam aos hábitos etílicos e gastronômicos andinos. A cerveja gelada passou a vir acompanhada de sal, limão e pimenta, a famosa michelada; e o dogão, agora sob a alcunha de “completo”, incorporou a salada de abacate e o tomate. “Só o fato de poder beber nas ruas, o que não posso fazer no meu país, já faz com que eu me sinta livre”, observa Sebastián Flores, 28 anos, enquanto celebra sua primeira visita ao Brasil saboreando um drinque. Ele e a família foram atraídos para a barraca do cearense Francisco Araújo, 49 anos, em Copacabana, ao redor da qual se costuma formar filas de até cinquenta chilenos. “Graças às redes sociais, virei famoso no Chile, todos querem provar a nossa bebida mais célebre, a caipirinha”, conta ele, que atribui praticamente a totalidade do faturamento aos novos fãs.
Em Búzios, outro naco da disputada costa do Rio onde o portunhol é praticado com fluência, já se notam novos sotaques. O jeito cadenciado de falar dos chilenos começa a disputar espaço com a inconfundível pronúncia dos argentinos, que desde os anos 1970, fincaram raízes na cidade de forma tão profunda que hoje correspondem a aproximadamente um quinto da população local. “Assim como ocorreu com nossos vizinhos mais próximos, eles se apaixonam por Búzios e muitos já demonstram interesse em abrir negócio próprio por aqui”, diz Andreza Costa, gerente da agência El Chileno, que precisou quintuplicar o quadro de funcionários nos últimos dois anos para dar conta da demanda. “Ano passado, vim sozinha e fiquei fascinada pelas praias”, conta Mariela Catalán, 37 anos, recém-chegada de Santiago. “Fiz questão de voltar agora com meu marido.”

A integração crescente também funciona no sentido contrário. Dados recentes da Embratur mostram que o turismo de brasileiros no Chile bateu recorde, com 62% de aumento no fluxo, entre 2023 e 2024. Nenhum outro povo atravessa a cadeia de montanhas que abriga o extremo oeste da América do Sul com tamanho ímpeto, principalmente para desbravar e contemplar seus picos nevados, um artigo inexistente nesse canto dos trópicos. Acostumado às temperaturas escaldantes do Nordeste, o baiano Henric Castro, 26 anos, viajou a um parque próximo a Santiago somente para se divertir com flocos que caíam do céu. “Achei um ótimo custo-benefício, gastei cerca de 5 000 reais em seis dias e nem precisei cruzar o oceano para ter essa experiência”, conta ele, que ainda visitou sofisticadas vinícolas. Para o estudioso em turismo, Luiz Gonzaga, a parceria inaugura uma nova era no turismo ao sul do Equador. “Enfim, estamos descobrindo os encantos de nosso próprio continente”, diz. Que sejam todos bienvenidos!
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984
