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Aos 72 anos, Tânia Maria trabalhava como artesã no interior do Rio Grande do Norte quando foi escalada por acaso para ser figurante em Bacurau. Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o longa foi o primeiro que a ex-costureira viu na vida, e lhe abriu as portas para o cinema não apenas como espectadora, mas também como atriz. Hoje, aos 79 anos, a potiguar de carisma peculiar brilha em O Agente Secreto, no qual vive a personagem Dona Sebastiana, e puxa a fila de uma tendência curiosa: a escalação estratégica de atores não profissionais para papéis de destaque no cinema.
Em alta na atual temporada de premiações, a estratégia remete a um movimento que ganhou força no início do século XX, e que agora permeia os principais filmes indicados ao Oscar: além da produção nacional, que concorre em quatro categorias, um filme de arte como o espanhol Sirât e as superproduções Marty Supreme e Uma Batalha Após a Outra também mesclam estrelas do cinema a talentos com pouca ou nenhuma experiência prévia em atuação para conferir autenticidade nas telas, abraçando a bagagem e a vivência de pessoas comuns como artifício.

Repaginada para o mercado cada vez mais diversificado de hoje, a ideia remonta ao cinema soviético dos anos 1920, em que diretores como Sergei Eisenstein e Lev Kuleshov revolucionaram o audiovisual colocando amadores em destaque, buscando o realismo em filmes de exaltação ao proletariado. Já nas décadas seguintes, entre 1940 e 1950, o neorrealismo italiano usou a mesma tática para denunciar a devastação do pós-guerra, dando origem a clássicos como Ladrões de Bicicleta (1948), em que o operário Lamberto Maggiorani se converteu em ator ao representar o protagonista Antonio Ricci. No Brasil, o expediente obteve notoriedade no Cinema Novo, e ganhou força nas décadas seguintes, com tramas como Pixote e Cidade de Deus recrutando nas favelas pessoas que até então não tinham nenhuma experiência prévia em atuação.
Colocar tudo isso de pé, no entanto, exige um trabalho que vai além dos testes e da preparação tradicionais. Depois de escalar o ator Sergi López como protagonista, o cineasta Oliver Laxe e sua equipe caíram na estrada em busca de frequentadores de raves para completar o elenco de Sirât. Jade Oukid, por exemplo, foi descoberta em meio a uma multidão de 10 000 pessoas em Portugal, enquanto Stefania Gadda deixou uma vida isolada no interior da Espanha, em uma área sem eletricidade nem água encanada, para atuar no filme. Maestro dessa heterogenia criativa, Laxe comparou o processo a empurrar um carro que não dá partida, ressaltando que é preciso certo esforço para que a coisa funcione, mas que a vulnerabilidade exprimida compensa o tempo extra.

A opinião é compartilhada por Josh Safdie. Cansado de se frustrar com testes para o vilão Milton Rockwell, o diretor de Marty Supreme garimpou sua estrela numa lista de pessoas influentes no mundo corporativo, em busca do tom frio e pragmático que queria no antagonista de Timothée Chalamet. Selecionou, por fim, o magnata Kevin O’Leary, apresentador do reality Shark Tank — um dos vários atores sem experiência prévia em cena no longa. No caso de Uma Batalha Após a Outra, os estrelados Leonardo Di Caprio e Sean Penn contracenam com o marcante James Raterman, agente aposentado do Serviço Secreto americano. Ele foi descoberto pelo diretor Paul Thomas Anderson após dar depoimento para um documentário sobre a crise dos opioides — e acabou escalado para dar vida ao Coronel Danvers no filme.

Realismo e veracidade à parte, a estratégia de escalar atores não profissionais abre debates sobre o ofício — incluindo a própria definição dele. “É uma discussão complexa porque, no final das contas, você não precisa ter nenhum diploma para fazer um filme”, opina Gabriel Domingues, diretor de elenco de O Agente Secreto. O profissional explica ainda que, lá fora, muita gente acredita que “90% do filme” tem cenas com atores não profissionais, mas que isso não é verdade. “Há uma gradação quase infinita de possibilidades de pessoas em níveis muito diferentes da carreira. A dona Tânia, que começou a atuar com 72 anos, e o Wagner, que atua desde sempre, estão em cena de maneira equivalente”, diz. Diante da câmera, o que vale é o talento.
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984