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A pergunta que há oito anos ecoava pelo país foi finalmente respondida: “Quem mandou matar Marielle Franco?”. A ex-vereadora do PSOL foi assassinada com seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O mistério começou a ser desvendado em 2024, depois que a Polícia Federal entrou no caso e concluiu que os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, duas influentes figuras da política carioca, encomendaram o crime para os ex-policiais militares Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Eles são réus confessos e signatários de acordos de delação premiada — portanto, a participação da dupla de autores é incontestável. Contudo, houve muitos questionamentos em relação ao envolvimento da família Brazão, sobretudo em decorrência das falhas de uma frágil e vacilante investigação chefiada pela Polícia Civil fluminense. Desde o início, é forçoso lembrar, o trabalho sofreu pressão política e foi tisnado por tentativas de obstrução.
Na quarta-feira 25, porém, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) tirou as interrogações e pôs um ponto-final no processo. Por unanimidade, o ex-deputado federal (Chiquinho) e o ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (Domingos) foram condenados a 76 anos de prisão pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio e organização criminosa armada. A decisão afeta ainda outros três réus, acusados de participarem direta ou indiretamente dos assassinatos.

A sentença do STF sinaliza uma evidência: a perigosa mistura entre autoridades, facções criminosas e violência não pode ficar impune. “Quantas Marielles o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de Justiça?”, indagou, emocionada, a ministra Cármen Lúcia. Em seus votos, os ministros demonstraram ainda perplexidade com o grau de contaminação das estruturas do Estado e acataram a tese da acusação de que Marielle foi executada por representar uma ameaça aos negócios dos Brazão, que atuam em conluio com a bandidagem, construindo prédios em áreas irregulares da Zona Sudoeste da capital fluminense. “Marielle Franco era uma mulher preta, pobre, que estava peitando os interesses de milicianos”, destacou o relator, Alexandre de Moraes. Depois do julgamento, os familiares desabafaram. “Justiça seria a Marielle estar viva, mas é um crime que não podia se manter sem resposta”, disse Anielle Franco, irmã da parlamentar e ministra da Igualdade Racial. “As condenações não apagam a nossa dor, mas, de certa forma, aliviam a angústia”, complementou a viúva, Monica Benicio.
A decisão está longe de ser trivial. A denúncia da Procuradoria-Geral da República baseia-se principalmente no depoimento de Lessa, um ex-sargento do Bope que chegou a integrar o grupo de matadores Escritório do Crime e que, durante seis anos, negou qualquer envolvimento com o ocorrido. Só mudou de postura depois que Queiroz, seu comparsa, aceitou colaborar com a PF, dando detalhes da execução. Aos delegados o assassino contou que era velho conhecido de Chiquinho, com quem se encontrava para jogar sinuca. Ao fim de 2017, ele recebeu do deputado a oferta de matar Marielle, em troca de um terreno irregular de 528 000 metros quadrados, na mesma área em que o clã levantava empreendimentos fora da lei, cuja exploração renderia cerca de 25 milhões de reais. Ainda segundo o delator, a impunidade do caso seria garantida por Rivaldo Barbosa, o corrupto chefe da delegacia especializada, nomeado como cabeça da Polícia Civil no Rio um dia antes da ação que tirou a vida de Marielle. O STF descartou a participação dele no planejamento do atentado, mas não teve dúvidas quanto ao uso do cargo para evitar a elucidação do caso. É engrenagem apodrecida. “Os grupos de milicianos se infiltram na política para expandir seus negócios de forma legalizada”, explica o sociólogo José Cláudio Souza Alves, que pesquisa a atuação de facções paramilitares há mais de trinta anos.

Algumas lacunas das investigações foram exploradas pelas defesas dos acusados, que tentaram, em vão, desqualificar a denúncia. Os ministros, contudo, consideraram evidências que comprovaram as relações de Chiquinho e Domingos com contraventores conhecidos, destacando a desenvoltura com que os irmãos circulavam ombreados com bandidos para fazer campanha. Dois deles — Ronaldo Paulo Alves, conhecido como Major Ronald, e Robson Calixto Fonseca, o Peixe — também foram condenados. O caso Marielle finalmente chega ao fim, mas nem todas as perguntas se encerram com sua conclusão. A mais fundamental delas: até quando o Rio, em chaga que se espalha por outros estados do país, verá o crime e a política formando uma maléfica amálgama de sangue e dinheiro?
Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984