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Nos anos 80, o grupo de rock Barão Vermelho fazia sucesso com uma música louvando os excessos etílicos. “Mais uma dose? É claro que eu tô a fim”, cantava Cazuza em Por Que a Gente É Assim?. A depender dos humores das novas gerações, a letra da canção pode ficar datada. Começa a ganhar forma no Brasil, eco de movimento semelhante nos Estados Unidos e alguns países europeus, a seguinte tendência: os jovens estão bebendo menos. Não necessariamente por moralismo — embora as restrições sejam celebradas pelos que seguem crenças religiosas —, mas por cálculo. Dados do relatório Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025, do Ipsos-Ipec, apontam que entre brasileiros de 18 a 24 anos, a proporção dos que declaram abstinência saltou de 46% para 64% em dois anos. Na faixa de 25 a 34 anos, passou de 47% para 61%. No total da população adulta, o índice também cresceu, de 55% para 64%. Entre as motivações declaradas estão desinteresse, busca por qualidade de vida e receio dos efeitos físicos e emocionais (veja o quadro).

Não se trata, convém sublinhar, da sobriedade total — e nesse aspecto a onda revela ainda mais interesse. Ganha força o chamado damp drinking, expressão surgida nas redes sociais americanas como contraponto ao dry, associado à secura, à abstinência completa. Em tradução literal, damp significa “úmido” — não seco, mas também não encharcado. A proposta é reduzir o consumo sem eliminá-lo: alternar bebidas alcoólicas e não alcoólicas, optar por rótulos com menor teor e reservar o consumo para ocasiões específicas. Trata-se de recalibrar, e não abandonar o copo.

arte abstinência

Entre mulheres de 25 a 45 anos, sobretudo, indicam pesquisas recentes, o ajuste ganha contornos próprios. A geração que viu o vinho se consolidar como símbolo de relaxamento feminino — a taça ao fim do expediente, o ritual doméstico de recompensa — começa a interrogar essa naturalização. Dormir melhor, preservar a saúde hormonal, manter desempenho profissional e evitar a fadiga mental entram na equação. O problema não está apenas no excesso físico, mas na perda de controle da própria rotina. Autonomia é manter o domínio sobre as próprias escolhas, inclusive as sociais. Em uma geração que fala constantemente de liberdade — sexual, profissional, identitária —, a ideia de que a autonomia passa por pequenos hábitos diários ganha dimensão especial. Se o álcool interfere no sono, no humor ou na coerência entre intenção e ação, ele deixa de ser apenas lazer.

O debate se torna mais complexo quando cruzado com dados em torno de aspectos psicológicos. Levantamento da Vidalink, empresa de planos corporativos de bem-estar, apontou crescimento de 7,9% no número de jovens da geração Z, de no máximo 30 anos de idade, que utilizaram medicamentos para saúde mental em 2024, além de aumento de 6,6% no volume consumido. O cenário combina sobrecarga profissional, dupla jornada, hiperconectividade e baixa tolerância à frustração. Nesse contexto, o álcool pode operar como amortecedor emocional — em vez de enfrentar o desconforto, a pessoa opta por silenciá-lo temporariamente. É recurso antigo da humanidade, mas dadas as possibilidades de outras saídas, de outras modalidades de apoio, a embriaguez incomoda — e talvez por isso mesmo a estrada agora esteja sendo reconstruída. Beber, em alguns círculos sociais, é mais “feio” do que fumar maconha.

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Destaque-se, portanto, a dimensão cultural incontornável. “É curioso nós acharmos que, em estado de lucidez plena, não podemos nos divertir”, observa a filósofa e escritora Lúcia Helena Galvão. Aos poucos, percebe-se ser possível, sim, a diversão de cara limpa, ou quase. Em ambientes coletivos, recusar a bebida pode ser interpretado como distanciamento ou moralismo. É nesse terreno que o damp drinking encontra ressonância. A proposta não é eliminar o prazer, mas estar no meio do caminho. A mudança impacta o mercado. Crescem no Brasil as opções de bebidas sem álcool. A estatística ainda é escassa, mas há números que ajudam a amparar a tendência. O consumo de cervejas sem álcool no Brasil cresceu mais de 200% entre 2020 e 2023, passando de 197,8 milhões para 649,9 milhões de litros. A expectativa é que o volume se aproxime de 1 bilhão de litros em 2025. Há algo de realmente novo nos copos e taças. Saúde!

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2026, edição nº 2984



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