O Brasil vive há anos sob a sensação de um país dividido. A polarização política ocupa o noticiário, domina as redes sociais e estrutura o discurso das lideranças. O conflito permanente entre campos opostos produz engajamento e identidade. Ainda assim, há uma distância crescente entre esse embate ruidoso e a forma como a maioria dos eleitores decide seu voto. A eleição de 2026 tende a expor essa desconexão de maneira ainda mais clara.

Isso porque o eleitor médio não vive imerso na lógica da política profissional. Ele não acorda pensando em disputas institucionais, não acompanha o dia a dia do Congresso e tampouco organiza suas escolhas a partir de guerras de narrativas dos segmentos ultraengajados. A política entra na vida das pessoas de forma indireta, mediada por preocupações muito mais imediatas: renda, trabalho, tempo disponível, segurança e expectativa de futuro.

O que começa a se desenhar para 2026 é menos uma disputa ideológica e mais um contraste entre projetos que falam linguagens distintas. De um lado, uma oposição que busca organizar seu discurso a partir da sensação difusa de insegurança e desordem. A aposta está na ideia de que o governo não consegue oferecer respostas firmes para o avanço do crime organizado e para a perda de controle percebida em algumas esferas morais. Há nomes em circulação e tentativas de consolidação desse campo. Flávio Bolsonaro opera sobre um eleitorado já fiel, mas enfrenta o desafio de expandir sua base além do núcleo mais ideológico. Ratinho Junior tenta ocupar um espaço de centro-direita mais pragmático. Ainda assim, a direita como campo político busca transformar a pauta da segurança e da autoridade do Estado em eixo estruturante de um projeto mais amplo.

De outro lado, o governo tenta dialogar com o cotidiano do eleitor comum. Parte relevante da agenda governista está ancorada em temas que atravessam o dia a dia das pessoas: o debate sobre o fim da jornada 6×1, a ampliação da faixa de isenção do imposto de renda, o aumento real do salário mínimo e sinais graduais de melhora na inflação e nos juros. São medidas que falam diretamente de renda, tempo e qualidade de vida. O desafio é que a existência dessas iniciativas não se traduz automaticamente em percepção de melhora.

Esse contraste ajuda a organizar o debate em um eixo simples, mas poderoso: ordem versus progresso. A oposição tende a apostar no discurso da ordem, especialmente por meio da pauta da segurança pública. Trata-se, talvez, do único tema com capacidade real de atravessar bolhas ideológicas e atingir o eleitor médio. Ao mesmo tempo, é também o principal flanco eleitoral do governo.

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Esse mesmo governo enfrenta um desafio decisivo: fazer com que indicadores positivos sejam percebidos como melhoras concretas de vida. A política insiste na lógica da oferta — discursos, alianças e estratégias de campanha —, enquanto o voto responde à lógica da demanda: o que cabe no orçamento e alivia o aperto do mês.

O eleitor brasileiro é, em geral, mais pragmático, menos ideológico e menos polarizado do que o debate público sugere. A polarização existe, mas é porosa. A maioria não vive política em tempo integral, não se mobiliza por disputas internas das elites e não vota para “dar recados” ao sistema. Vota a partir da experiência concreta. Em 2026, a disputa será menos sobre quem domina o barulho da polarização e mais sobre quem consegue falar com o eleitor que não vive nele.

Renato Meirelles é presidente do Instituto Locomotiva, comunicólogo e especialista nas classes C, D e E.



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