A greve geral convocada por sindicatos argentinos contra a reforma trabalhista do presidente Javier Milei paralisou atividades no país nesta quinta-feira (19), provocou cancelamentos de voos no Brasil e ampliou a tensão política em Buenos Aires, onde a Câmara dos Deputados inicia a discussão do projeto.

A mobilização foi convocada pela Confederación General del Trabajo (CGT), maior central sindical da Argentina, após a aprovação do texto no Senado na semana passada.

A paralisação começou à meia-noite e coincide com o início do debate na Câmara, etapa decisiva para a consolidação de uma das reformas mais amplas na legislação trabalhista argentina em décadas.

Cancelamentos em Guarulhos

Os efeitos da greve ultrapassaram as fronteiras argentinas. No Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos, na Grande São Paulo, ao menos 20 voos com origem ou destino à Argentina apareciam como cancelados nos painéis do terminal na manhã desta quinta.

Segundo a concessionária GRU Airport, 14 voos já haviam sido oficialmente cancelados até 8h, com novo balanço previsto para o período da tarde.

A Latam informou que precisou alterar sua operação de e para a Argentina devido à adesão de sindicatos da Intercargo, empresa responsável pelos serviços de rampa nos aeroportos argentinos, à greve geral.

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A companhia afirmou que alguns voos foram cancelados e outros reprogramados, recomendando que passageiros verifiquem o status antes de se dirigirem ao aeroporto. A Gol também confirmou cancelamentos de voos com destino a Buenos Aires, Córdoba, Mendoza e Rosário.

Passageiros afetados podem remarcar a viagem sem custo ou solicitar reembolso, segundo as empresas.

Confrontos e alerta à imprensa

Em Buenos Aires, são esperadas manifestações nos arredores do Congresso. Na semana passada, durante a votação no Senado, milhares de pessoas protestaram na região e houve confrontos com a polícia, com cerca de 30 detidos.

Diante do cenário, o Ministério da Segurança argentino divulgou comunicado recomendando que jornalistas evitem posicionar-se entre eventuais focos de violência e as forças de segurança. O governo também delimitou uma “zona exclusiva” para a imprensa em ruas laterais da praça em frente ao Parlamento e advertiu que as forças policiais agirão diante de distúrbios — medida considerada incomum e que gerou críticas de entidades ligadas à liberdade de imprensa.

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O que prevê a reforma

A expectativa do governo é que o projeto seja votado no plenário da Câmara até 25 de fevereiro e aprovado até 1º de março, quando Milei abrirá o período de sessões ordinárias do Legislativo.

A proposta integra o pacote de reformas estruturais defendido pelo presidente ultraliberal para reduzir custos trabalhistas, estimular investimentos e formalizar empregos em um mercado em que cerca de 40% dos trabalhadores estão na informalidade.

Entre os principais pontos do texto estão:

Ampliação do período de experiência para até seis meses, podendo chegar a oito ou 12 em alguns casos, com indenizações reduzidas;

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Flexibilização da jornada de trabalho, permitindo até 12 horas diárias com compensação de horas;

Mudanças nas regras de demissão e possibilidade de parcelamento de indenizações;

Restrições ao direito de greve em serviços essenciais, exigindo funcionamento mínimo entre 50% e 75%;

Flexibilização das férias e alterações na negociação coletiva;

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Para viabilizar a tramitação, o governo negociou cerca de 30 alterações no texto original, incluindo a retirada de um artigo que permitiria o pagamento de salários em moeda estrangeira ou por carteiras digitais.

A reforma não se aplica a servidores públicos nacionais, provinciais ou municipais, exceto nas regras relativas a greves em serviços essenciais.

Contexto econômico

Segundo a Pesquisa Permanente de Domicílios do Indec, referente ao terceiro trimestre de 2025, a Argentina tinha 13,6 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 1 milhão de desempregados, o que representa taxa de desocupação de 6,6%. Apesar do índice relativamente estável, o país enfrenta inflação elevada, perda de poder de compra e forte ajuste fiscal promovido pelo governo.

Desde que assumiu, Milei implementou cortes de gastos públicos e medidas de desregulação econômica que dividiram o país.

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Enquanto setores empresariais defendem as reformas como necessárias para recuperar a confiança e atrair investimentos, sindicatos e movimentos sociais acusam o governo de precarizar direitos históricos dos trabalhadores.

A greve desta quinta-feira e seus efeitos, inclusive no Brasil, evidenciam a dimensão regional da crise política e econômica argentina, num momento em que o governo tenta acelerar mudanças estruturais sob forte contestação social.



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