Quando o álbum de Bad Bunny, “Debí Tirar Más Fotos”, venceu como álbum do ano na edição deste ano do Grammy Awards, o momento mudou a história. Pela primeira vez, um álbum em espanhol levou o prêmio mais prestigiado da Recording Academy em uma indústria que, por muito tempo, tratou a música latina como uma categoria, não como o centro das atenções.
Para milhões de latinos nos EUA, a vitória de Bad Bunny — que no domingo será a atração principal do show de intervalo do Super Bowl — é mais do que um marco musical. É uma afirmação de visibilidade e uma prova de pertencimento.
“É além de inspirador”, disse Jeffrey Vargas, um porto-riquenho que vive em Nova York. “É validador e transformador em um momento em que parece que estamos todos sob ataque. O álbum foi mais do que uma ‘vibe’. Foi um alento espiritual e um bálsamo para a alma sofrida”, disse Vargas à CNN.
Nas redes sociais e em comunidades latinas de todo o país, sentimentos semelhantes surgiram: orgulho misturado com alívio, celebração acompanhada de resiliência, após Bad Bunny conquistar três Grammys no total este fim de semana, incluindo melhor performance de música global.
“Como uma mulher porto-riquenha, estou mais do que orgulhosa de ver nossa cultura, língua e história elevadas globalmente. Somos alegres, defensores da humanidade, e nossa música é contagiante”, disse Lucria Ortiz, uma líder comunitária porto-riquenha de New Bedford, Massachusetts.
Para muitos latinos, o sucesso de Bad Bunny sempre pareceu íntimo. O astro nascido em Porto Rico nunca mudou de idioma para entrar no mainstream. Ele nunca suavizou o sotaque. Ele nunca diluiu suas referências musicais e culturais.
“Em vez de se diluir para ser mais aceitável, ele adicionou mais sofrito à panela”, disse Liz Arreola, uma criadora de conteúdo mexicano-americana baseada em Houston, referindo-se à popular mistura de temperos caribenhos/latinos usada para dar sabor.
Em uma publicação nas redes sociais, Arreola disse estar incrivelmente orgulhosa da vitória de Bad Bunny e da maneira digna como ele está representando porto-riquenhos e latinos no cenário global.
“Você pode ganhar o respeito do mundo sendo autêntico consigo mesmo, com seu povo, suas raízes, sua cultura, sua música, sua ilha. Aquele álbum foi tão autêntico e tão real, e foi precisamente essa autenticidade que fez o resto do mundo se conectar e se apaixonar por ele”, disse Arreola na postagem.
Por décadas, artistas latinos ouviram que o “crossover” exigia apagar partes de si mesmos: menos espanhol, menos sons regionais, temas mais “universais”. Mas Bad Bunny fez o exato oposto. Ele centralizou ritmos caribenhos, gírias de rua e comentários políticos em uma celebração assumida do orgulho latino e porto-riquenho, que se estendeu aos seus discursos de aceitação na noite de domingo.
Isso importa, diz o consultor político de longa data, ativista, filantropo e produtor Luis Miranda. “A vitória de Bad Bunny, e a do ‘Buena Vista Social Club’, é o reconhecimento de que a música em espanhol faz parte do tecido deste país”, disse Miranda, produtor do sucesso musical da Broadway cuja gravação original do elenco em espanhol venceu o Grammy de 2026 de melhor álbum de teatro musical.
“Nossa música, nossa língua, nosso povo, estão aqui desde sempre e continuarão a prosperar, para sempre”, acrescentou.
A vitória do artista também ocorre em um momento em que as comunidades latinas enfrentam uma retórica política intensificada, repressões imigratórias e uma percepção de apagamento cultural. Ao aceitar o prêmio de melhor álbum de música urbana, Bad Bunny começou seu discurso dizendo: “Antes de agradecer a Deus, vou dizer: Fora ICE! Não somos selvagens, não somos animais, não somos alienígenas. Somos humanos e somos americanos.”
Ele acrescentou: “O ódio fica mais poderoso com mais ódio. A única coisa que é mais poderosa que o ódio é o amor. Então, por favor, precisamos ser diferentes. Se lutarmos, temos que fazer isso com amor.”
Nesse contexto, suas vitórias parecem ainda mais urgentes, tornando-as não apenas sobre reproduções, vendas, shows esgotados ou até prêmios, mas sobre dignidade e humanidade. “Nós, latinos, estamos sendo demonizados neste momento. Todos precisávamos de um lembrete de que centrar o amor agora é exatamente o que a América precisa”, disse Ortiz.
Seu discurso de aceitação de melhor álbum, proferido quase inteiramente em espanhol, deu ênfase aos imigrantes, sonhadores (dreamers) e àqueles forçados a deixar o lar em busca de oportunidade. Para muitos espectadores, suas palavras ecoaram as experiências de imigrantes que vivem nos Estados Unidos.
“Em um palco global, sua voz se uniu à de milhões de imigrantes que hoje vivem com medo, mas também com esperança. Não foi apenas um prêmio; foi um ato de solidariedade com nossa comunidade”, publicou a equipe do Noticias Para Inmigrantes, uma organização de mídia que atende imigrantes latinos nos EUA.