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Na última quarta-feira, 28, a bolsa brasileira fechou acima de 184 000 pontos pela primeira vez. Com o novo recorde nominal — o oitavo neste início de ano —, a alta em 2026 já é de 15%, quase metade dos 34% acumulados em todo o ano passado. É verdade que o pico histórico, em termos reais, ainda remete a 20 de maio de 2008, quando o Ibovespa chegou a 73 517 pontos, um nível que, corrigido pela inflação, equivaleria hoje a 195 200 pontos, segundo a consultoria Elos Ayta. Entre analistas, porém, cresce a leitura de que há condições para o marco ser superado. “É bem plausível que o Ibovespa alcance 200 000 pontos nos próximos meses”, diz Filipe Villegas, estrategista de renda variável da gestora Genial Investimentos. Para isso, os protagonistas da disparada precisam seguir em cena: os investidores estrangeiros, que já injetaram 20 bilhões de reais na B3 em janeiro, quase o montante de 2025 todo, de 25 bilhões.

PREFERÊNCIA - Mina da Vale: ações da companhia atraem fundos estrangeiros
PREFERÊNCIA - Mina da Vale: ações da companhia atraem fundos estrangeiros (Mauro Pimentel/AFP)

Isso não quer dizer que os grandes fundos internacionais tenham descoberto virtudes escondidas no Brasil — qualidades que os gestores locais, por miopia ideológica ou ruído político, seriam incapazes de enxergar. O que nos favorece, sobretudo, é uma onda externa: a decisão de reduzir a exposição aos Estados Unidos, onde o temperamento imprevisível de Donald Trump alimenta tensões geopolíticas, azeda o ambiente comercial, embaralha expectativas sobre juros e injeta um nível de incerteza que incomoda investidores. Desde meados do ano passado, essa realidade aparece na queda do dólar frente às principais moedas, na alta do preço do ouro e na valorização das bolsas de países emergentes. Na Coreia do Sul o avanço já chega a 23% neste ano. Na Colômbia, a 22%. Como se vê, embora expressivo para os nossos padrões, o desempenho do Ibovespa é até comedido na comparação com outros países em desenvolvimento. Para os especialistas, portanto, o bom momento da bolsa não é mérito do Brasil. Trata-se, sobretudo, do movimento de diversificação de carteiras por gestores americanos e europeus.

Além disso, embora o mercado acionário brasileiro seja o maior da América Latina, ele ainda é diminuto diante do americano. O valor conjunto das empresas listadas nas bolsas dos Estados Unidos chega a 69 trilhões de dólares. Na B3, as 352 companhias somam cerca de 1 trilhão. Nesse quadro, realocar alguns poucos bilhões de dólares de Wall Street para o Brasil é um ajuste quase irrelevante para fundos globais, mas suficiente para empurrar com força as cotações por aqui. “O dinheiro que veio para cá é quase nada”, afirma Frederico Sampaio, vice-presidente da americana Franklin Templeton, uma das maiores gestoras do mundo, com forte atuação em países emergentes. “Os gestores estão apenas seguindo o fluxo.” Os estrangeiros respondem por cerca de 40% do volume diário negociado na bolsa brasileira, o que torna o rali dependente de humor externo. Se o cenário azedar, eles podem simplesmente inverter a mão e sair.

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A rota até os 200 000 pontos depende também do cenário doméstico. O ano tende a ser turbulento, com eleições presidenciais em outubro e uma agenda econômica que pode aumentar a volatilidade. Na tentativa de fortalecer sua candidatura, Lula tem sinalizado medidas de maior apelo popular que certamente provocarão impacto fiscal. Segundo o Tesouro Nacional, a dívida pública federal cresceu 15% no ano passado e chegou a 8,6 trilhões de reais, com projeções de evolução em 2026 que a levariam para além de 10 trilhões. A deterioração das contas públicas costuma elevar a percepção de risco e estreitar o espaço para cortes mais rápidos da Selic, a taxa básica de juros da economia. Para a bolsa, isso pesa duplamente, porque encarece o custo de capital das empresas e aumenta a concorrência da renda fixa, que passa a oferecer retorno elevado com risco menor. Não por acaso, em janeiro, tesourarias de bancos, gestoras de fundos, pessoas físicas e investidores institucionais aproveitaram o rali para reduzir exposição a ações, enquanto os estrangeiros concentraram as compras.

Nesse contexto, o comunicado da última reunião do Comitê de Política Monetária deve ajudar a melhorar o clima. A manutenção da Selic em 15% ao ano, anunciada na quarta-feira 28, já era esperada, mas a indicação de que o ciclo de queda pode começar em março funciona como um sinal para que o investidor doméstico volte a olhar a renda variável com menos desconfiança. “Esse retorno pode sustentar a alta do Ibovespa pelos próximos nove meses”, diz João Daronco, analista da gestora Suno Research. Mais adiante, porém, o cenário político tende a voltar ao centro do radar. O desfecho das eleições de outubro pode redefinir expectativas, sobretudo se houver dúvidas sobre a condução fiscal. “O mercado vai exigir compromisso com responsabilidade nas contas públicas”, afirma Werner Roger, fundador da Trígono Capital. Em um cenário mais adverso, com deterioração fiscal, interrupção da queda de juros e redução do apetite estrangeiro, ele avalia que o Ibovespa poderia recuar para a faixa de 120 000 pontos.

EFEITO - Trump: decisões erráticas do presidente americano motivam investidores a buscar novos mercados
EFEITO – Trump: decisões erráticas do presidente americano motivam investidores a buscar novos mercados (Andrew Caballero-Reynolds/AFP)
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Feitas as ressalvas, a maioria dos analistas aposta que a tendência de alta pode se estender, ao menos, até a véspera das eleições. Isso não significa, porém, que todas as ações ofereçam o mesmo potencial. Em linhas gerais, as recomendações se organizam em quatro grupos. O primeiro é o das blue chips, as ações das maiores companhias da bolsa, preferidas pelos estrangeiros pela elevada liquidez, ou seja, pela facilidade de entrar e sair de uma posição sem grande impacto no preço, uma vantagem crucial para quem pode precisar reduzir exposição com rapidez. Não por acaso, Vale e Petrobras, os dois pesos-pesados do índice da B3, já acumulam altas superiores a 20% no ano.

arte Bolsa

O segundo grupo reúne empresas mais sensíveis a juros, que tendem a ganhar tração quando cresce a aposta na queda da Selic, como construtoras e companhias de consumo. A Cyrela, por exemplo, avança perto de 45% em 2026, e o atacarejo Assaí sobe 23%. A terceira frente inclui produtoras de commodities agrícolas e minerais, que se beneficiam tanto de custos financeiros menores quanto de ciclos globais favoráveis. Por fim, há as concessionárias de serviços públicos, como os de energia elétrica e saneamento, vistas como uma camada de proteção para atravessar períodos de ruído político. “São setores mais regulados e com receita recorrente”, afirma Gabriel Mollo, analista da corretora Daycoval. “Por isso, tendem a ser menos sensíveis ao clima eleitoral e às oscilações do cenário econômico.” Com o mapa de oportunidades desenhado, o desafio do investidor é participar do rali sem se expor além da conta — e torcer para que o país mantenha a estabilidade mínima necessária até o alvo simbólico dos 200 000 pontos.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980



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