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Nenhum evento consegue mobilizar tanto a atenção da população global e produzir tamanha riqueza quanto a Copa do Mundo de futebol. Tudo pelo interesse despertado por uma atividade aparentemente trivial: 22 jogadores correndo atrás de uma bola e da promessa de um troféu. A edição deste ano, que ocorrerá nos Estados Unidos, no Canadá e no México de 11 de junho a 19 de julho, promete bater todos os recordes de lucratividade e de impacto econômico. Segundo a Fifa, a entidade máxima do futebol, a competição deve movimentar 80 bilhões de dólares na economia global. O número representa o volume de transações geradas com passagens aéreas, hospedagem, alimentação, segurança, marketing, tecnologia e logística, entre outros itens. Desse total, 41 bilhões de dólares correspondem a um acréscimo efetivo no PIB mundial — o valor equivale também a toda a riqueza gerada pela Eslovênia em um ano —, refletido em salários pagos, lucros empresariais e arrecadação de impostos. Parte do valor vem da criação de 824 000 empregos em tempo integral ao longo da cadeia do evento.
A própria Fifa prevê obter receita de quase 11 bilhões de dólares, bem acima dos 7 bilhões arrecadados no Catar, sede da última Copa, em 2022. No universo do esporte, as competições da NFL, a liga de futebol americano, e da MLB, de beisebol, têm faturamento de 19,2 bilhões e 11,6 bilhões de dólares por ano, respectivamente — portanto, mais do que a Copa do Mundo. Mas há uma diferença crucial: esses eventos esportivos se estendem por uma temporada inteira, todo ano. A Copa do Mundo se dá no intervalo de cinco semanas — e apenas a cada quatro anos. “Essa periodicidade aumenta o valor simbólico do torneio e intensifica o interesse quando ele finalmente chega. Em marketing, escassez gera desejo, e a Copa é um exemplo clássico disso”, diz Michel Fauze Mattar, especialista em negócios do esporte da FIA, faculdade de administração de São Paulo.

Uma parte significativa da receita da Fifa virá da venda de ingressos. Pela primeira vez, a federação adotou um modelo de preços dinâmicos, ajustando-os de acordo com a demanda, prática comum em empresas aéreas. Isso não inibiu o interesse dos torcedores. Em apenas 33 dias, eles fizeram mais de 500 milhões de pedidos de ingressos, uma média de 15 milhões por dia. O presidente da entidade, Gianni Infantino, reagiu ao número: “Mais do que demanda, isso é uma declaração de amor global”. Alemanha, Inglaterra, Brasil, Espanha, Portugal, Argentina e Colômbia lideram as solicitações fora dos países anfitriões. Como resultado, os ingressos para o jogo da final custam até nove vezes mais do que em 2022, corrigidos pela inflação. Hoje, os bilhetes variam de 365 reais em jogo na fase de grupos a mais de 34 000 reais na decisão no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
A mais cara das Copas também vai ser a maior de todas. O número de seleções participantes aumentou de 32 para 48, e as partidas, de 64 para 104. O efeito é multiplicador: mais ingressos, horas de transmissão, patrocínios, ativações comerciais e deslocamentos internacionais. O formato ampliado é apenas parte da equação. A decisão de distribuir o evento entre três países-sede também multiplica seu efeito econômico. Ao espalhar os jogos por dezesseis cidades, a Fifa transformou o torneio em uma operação continental, conectando aeroportos, cadeias hoteleiras, sistemas de transporte, plataformas de mídia e patrocinadores globais em um único circuito econômico. “Essa configuração amplia o alcance geográfico do evento e aumenta o fluxo potencial de torcedores”, diz Amir Somoggi, da Sports Value, empresa especializada em marketing e finanças esportivas.
A expectativa é de 6,5 milhões de torcedores nos estádios, quase o dobro do registrado no Catar em 2022. A geografia também joga a favor, já que o evento está posicionado entre as duas regiões com maior número de torcedores: a Europa e a América Latina. “Historicamente, esses dois blocos lideram o deslocamento de torcedores em Copas do Mundo”, diz Somoggi. Há ainda um fator adicional decisivo: os americanos são os maiores viajantes do planeta para eventos esportivos e, desta vez, estarão em casa, potencializando os gastos na Copa.
O fato de o evento coincidir com um momento político delicado dos Estados Unidos não tem reduzido significativamente o interesse nem dos torcedores locais, nem de estrangeiros. A campanha do governo Donald Trump contra imigrantes está sendo calibrada para não afetar turistas. A violência das abordagens policiais a estrangeiros que residem no país, porém, tem provocado críticas de personalidades influentes do mundo do futebol. Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa, chegou a aconselhar torcedores a reconsiderar suas viagens aos Estados Unidos, citando preocupações com segurança. Por enquanto, nada parece indicar que ele será ouvido. O americano Steve Triolet, vice-presidente de pesquisa e mercado do grupo imobiliário Partners, com sede em Dallas, explica que megaeventos desse porte são protegidos por sua própria arquitetura financeira. “Eles funcionam com ciclos longos de planejamento”, diz. “Quando surgem tensões políticas, os recursos já foram alocados, os contratos assinados e os investimentos, executados.” Na Copa do Mundo, a bola de ouro rola em um mundo paralelo em direção ao gol.
Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980
