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A aparência serena emoldurada por flores brancas foi realçada pela camisa alva e o paletó bege-claro. Contrastava com o clima pesaroso na capela onde meia centena de pessoas se despediam de Genival Inácio, o Vavá, como era conhecido. Expressavam frustração com a ausência forçada do irmão mais novo, que juízes e procuradores federais não deixaram sair da prisão em Curitiba para o velório em São Bernardo do Campo (SP). Depois de uma oração em voz alta, mãos abertas e olhos fechados, Gleisi Hoffmann discursou: “Foi uma maldade”, disse a então senadora e presidente do Partido dos Trabalhadores. E continuou: “Hoje, me falou: ‘Não me deixaram ir. Tudo o que eu posso fazer é chorar e rezar pelo Vavá aqui, mas a gente tem que denunciar o que está acontecendo’ ”.

Em novo recurso, o Partido dos Trabalhadores apelou ao Supremo Tribunal Federal. Quem decidiu foi José Antonio Dias Toffoli, então presidente do tribunal. Antes de ser nomeado por Lula para o STF, Toffoli havia atravessado dezesseis anos advogando para Lula, o PT e seu braço sindical, a Central Única dos Trabalhadores.

Às 12h40, Toffoli autorizou Lula a sair da cadeia e viajar para “se encontrar exclusivamente com os seus familiares, em Unidade Militar na região”. Ressalvou: “Vedado o uso de celulares e outros meios de comunicação externos, bem como a presença de imprensa e a realização de declarações públicas”.

Inútil, o enterro de Vavá já começara. Aquela quarta-feira de verão, 30 de janeiro de 2019, se tornou memorável para o ex-presidente e para o juiz do Supremo.

Lula não esqueceu o “desrespeito” — a ordem para confiná-lo com a família num quartel durante a cerimônia de adeus ao irmão. Toffoli, também, não deixou de lembrar. Dez meses depois, colocou em votação no tribunal o fim da prisão obrigatória para condenados em segunda instância — e Lula foi solto.

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Eles se reencontraram três anos mais tarde, em Brasília, numa celebração pela eleição ao terceiro mandato. Lula contou ao anfitrião do jantar de 12 de dezembro de 2022: Toffoli pediu-lhe perdão “pelo absurdo ridículo” da decisão sobre o velório de Vavá.

“Lula não esqueceu o ‘desrespeito’ do juiz Toffoli, alvo no caso Master”

Perdão não passa de simulacro “no qual uma pessoa se comporta como superior”, definiu a filósofa Hannah Arendt. Pressupõe distinção entre quem reivindica e quem, assumindo posição de superioridade, perdoa — e, em tese, renuncia à vingança.

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Toffoli, agora, se vê enredado numa trama de captura do Estado por interesses privados. O caso Master poderá vir ser a maior fraude bancária da história, acha o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Já deixou visível um rastro de transações com máfias do crime organizado. E enrola políticos influentes do Progressistas, do União Brasil, do Republicanos e do Partido dos Trabalhadores, entre outros.

O STF se voluntariou para estar no epicentro de um terremoto que expõe relações perigosas de integrantes da cúpula do Judiciário, do Congresso e do governo com uma fração da elite empresarial sempre disposta a mostrar que dinheiro é poder supremo e impõe as próprias leis na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Lula parece surpreendido. Achou necessário divulgar que sabia dos pagamentos do banco a Ricardo Lewandowski, quando era ministro da Justiça. Assim como sabia dos laços do chefe da Casa Civil, Rui Costa, e do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, com um dos condôminos da fraude bilionária do Master.

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A crise começou a subir a rampa do Palácio do Planalto. Se não for contida no estilo da Lava-Jato — “com o Supremo e com tudo” —, poderá ganhar dimensão inédita e arriscada num ano eleitoral. Isso porque, entre outras coisas, envolve as maracutaias com títulos falsos do grupo Master; a lavagem de dinheiro da máfia paulista (PCC) em fundos de investimento dos associados da corretora Reag; e as fraudes do INSS, onde também aparecem sócios do Master.

Lula também achou indispensável divulgar um novo motivo de conflito com o juiz Toffoli, a quem conhece como poucos: aquilo que considera trapalhadas em série na condução do caso Master no Supremo. A repórter Catia Seabra registrou como ele deixou assessores vazarem seu impulso de chamar Toffoli para sugerir que se afaste do caso; se licencie; se aposente; ou renuncie. Conteve-se porque poderia fazer o Executivo resvalar para interferência indevida — ou seja, inconstitucional — num outro poder republicano, o Judiciário.

Lula parece não acreditar em poesia na política. Descartou o poeta Carlos Drummond de Andrade, para quem “o perdão pode ser a maneira mais requintada de vingança”.

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Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980



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