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Em Hollywood, um ditado ardiloso reza o seguinte: “O Oscar não é ganho no set de filmagem, mas, sim, no lobby de hotéis em Beverly Hills”. Ou seja: na busca pela estatueta, a empreitada corpo a corpo nos redutos de Los Angeles, onde vive boa parte dos que votam na premiação, é tão relevante (ou até mais) que a qualidade do filme em si. A frase tem origem obscura, mas data de um período que afetou o Brasil. Em 1999, o drama de guerra O Resgate do Soldado Ryan, então favorito a melhor filme, foi atropelado por Shakespeare Apaixonado, que levou sete estatuetas naquela noite — entre elas, a de atriz para Gwyneth Paltrow, que ganhou não só da grande Fernanda Montenegro, competindo por Central do Brasil, como de Cate Blanchett, que estava nada menos do que soberba no longa Elizabeth.

arte Oscar
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A ofensiva triunfante do filme água com açúcar, que faria o pobre Shakespeare se revirar no túmulo, foi encabeçada pelo hoje infame produtor Harvey Weinstein. Ele investiu altíssimo em uma campanha de marketing feroz, obrigou os atores a participarem de dezenas de eventos glamorosos nos tais hotéis de Beverly Hills e, dizem as más línguas, quebrou regras, valendo-se até da intimidação por votos. Fato é que, para o bem e para o mal, a campanha marqueteira pelo Oscar se tornou regra. De lá para cá, ela foi lapidada. Está mais elegante e funciona sob diretrizes inegociáveis da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que organiza a premiação e exige decoro dos participantes. Trata-se de um jogo de gente grande — o qual, enfim, o Brasil aprendeu a jogar.

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Com quatro indicações, O Agente Secreto, do diretor Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, seguirá uma caminhada árdua até a premiação, no dia 15 de março. Manter a visibilidade do longa e elevar o respeito por seus realizadores e pela mensagem do roteiro são os desafios da jornada (leia mais no quadro). A seu favor, O Agente Secreto tem o respaldo de uma máquina de ganhar Oscars: a ferina distribuidora Neon, que somou dezoito indicações neste ano, empatada com a Netflix no segundo lugar — ambas atrás da Warner. Estima-se que o investimento da empresa americana para alcançar tal feito tenha sido de 20 milhões de dólares. Com a Neon ao lado, o filme nacional larga à frente de outros rivais — e se destaca na comparação com a trilha de Ainda Estou Aqui em 2025.

A partir de uma cartilha distinta da usada por Walter Salles, o longa ambientado em Recife, que expõe as tensões de se viver oprimido por uma ditadura, segue o caminho feito pelo sul-coreano Parasita, grande vencedor do Oscar em 2020. Antes primos pobres, os filmes em língua não inglesa se tornaram pérolas cult com o chamado marketing de prestígio feito pela Neon. De um lado, ela conquista os votantes americanos progressistas, afeitos ao discurso de internacionalização do Oscar; do outro, acerta nos 25% dos membros da Academia que vivem fora dos Estados Unido. Se Ainda Estou Aqui se esforçou para ser visto pelos mais de 10 000 votantes, O Agente Secreto vem sendo exibido em sessões privadas para pequenos grupos influentes, criando uma aura de exclusividade.

A estratégia, encabeçada pelo vice-­presidente da Neon, o americano David Laub, é a mesma para levantar a moral de Wagner Moura junto aos votantes. O ator baiano vem circulando em eventos superexclusivos em Los Angeles, não se cansa de dar entrevistas para talk shows e agora frequenta até desfiles de grifes como a Dior. O plano é atrelar a ele uma imagem de requinte e prestígio, distante da afobação jovial de seu principal concorrente, o astro prodígio Timothée Chalamet. A corrida pelo Oscar já começou — e o Brasil está pronto para ela.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980



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