O chair do Federal Reserve, Jerome Powell, recusou-se a responder a três perguntas consecutivas sobre política durante a coletiva de imprensa na quarta-feira (28). Isso faz parte da imagem objetiva que ele construiu para si ao longo dos anos.
Quando Matt Egan, da CNN, perguntou a Powell qual conselho ele daria ao sucessor, que assumirá o cargo quando o mandato de Powell terminar em meados de maio, o chefe do banco central dos Estados Unidos fez uma pausa, deu uma risadinha e disse que tinha três conselhos:
- Fique fora da política;
- Seja responsável perante o Congresso e trabalhe diligentemente para construir relacionamentos com os supervisores do Fed;
- Respeite os profissionais dedicados que trabalham arduamente todos os dias para promover a missão independente do Federal Reserve.
Essas respostas dizem muito sobre o legado que Powell planeja deixar na instituição que serviu por 14 anos – nove como presidente. Na quarta-feira (28), ele resumiu tudo como o compromisso com o “bem-estar público” e com a manutenção fora da política.
A cruzada do governo de Donald Trump contra o Fed ameaçou a independência da instituição. Powell afirmou que o Fed precisa manter a independência para preservar a credibilidade que lhe permite servir ao público, trabalhando para manter o desemprego e a inflação baixos.
Ao longo do último ano, Donald Trump e aliados lançaram uma série implacável de ataques contra o Fed, alegando que a instituição tem sido muito lenta na redução das taxas de juros. Mas não se trata apenas de insultos: o governo está argumentando ativamente perante a Suprema Corte do país por que Lisa Cook, indicada pelo então presidente Joe Biden, deve ser demitida.
Powell justificou, inclusive, a decisão de comparecer às audiências do caso, referindo-se ao caso como “talvez o caso jurídico mais importante nos 113 anos de história do banco central dos EUA”.
Os ataques de Trump ao Fed vem fortalecendo, por sua vez, o apoio à independência política da instituição.
Os ataques de Trump
A campanha de Trump contra o Fed tomou um rumo surpreendente no início deste mês, com procuradores federais investigando uma reforma em andamento na sede do banco central em Washington, D.C e com Powell como alvo.
O chefe do Fed rebateu as críticas do governo em um vídeo divulgado em 12 de janeiro, descrevendo a investigação federal como um “pretexto” para destruir a independência do Fed e inaugurar um mundo onde “a política monetária será dirigida por pressão política ou intimidação”.
Na quarta-feira (28), após o Fed anunciar que manteve as taxas de juros estáveis, Powell se absteve de comentar mais sobre a declaração contra Trump, mas reiterou que a independência do Fed “serviu bem ao povo”.
Como Powell insinuou na quarta-feira (28), vários membros do Congresso — incluindo alguns republicanos — manifestaram apoio a ele. Mas, de forma mais ampla, falaram sobre como o Fed deve operar além do mandato de Powell como presidente da instituição. Autoridades atuais e antigas do Fed também estão se opondo às tentativas de Trump de minar a instituição.
“Todos são a favor da independência do Fed”, declarou Subadra Rajappa, chefe de pesquisa da empresa de serviços financeiros Société Générale. “Não me surpreende que tenha havido um apoio tão expressivo, e esse é exatamente o tipo de afirmação da independência do Fed que os mercados buscam”.
Apoio dos republicanos
Vários senadores — de ambos os partidos — manifestaram apoio a Powell e ao Fed após a declaração em vídeo do chair do banco central norte-americano. Isso é fundamental, porque alguns deles fazem parte da Comissão Bancária do Senado, que analisará a indicação de Trump para substituir Powell.
O senador republicano Thom Tillis, da Carolina do Norte e membro da comissão, afirmou em comunicado que se oporá à confirmação de qualquer indicado para o Fed — incluindo a futura vaga de líder do Fed — até que essa questão legal seja totalmente resolvida.
Ele foi acompanhado por outros dois senadores republicanos, que não fazem parte da Comissão Bancária: as senadoras Lisa Murkowski, do Alasca, e Susan Collins, do Maine, ambas as quais afirmaram que o Fed deve permanecer independente.
Ainda assim, outros republicanos, inclusive alguns aliados próximos de Trump, não estão do lado do governo, adotando um tom mais moderado em defesa de Powell. Por exemplo, o senador John Kennedy, da Louisiana, republicano e membro da Comissão Bancária, disse a repórteres que “ficaria surpreso se ele tivesse feito algo errado”.
O senador Kevin Cramer, da Dakota do Norte, outro membro republicano do comitê, disse que Powell é “ruim” no trabalho, mas acrescentou que “não acredita, no entanto, que ele seja um criminoso”.
Demonstração de apoio de ex-autoridades e formuladores de políticas
Autoridades do Fed sempre defenderam a capacidade de definir as taxas de juros sem interferência política, apontando para evidências de longa data em pesquisas acadêmicas de que um banco central independente geralmente leva a melhores resultados econômicos.
Mas algumas autoridades, atuais e antigas, têm se mostrado inflexíveis quanto ao motivo pelo qual o banco central dos EUA deve continuar a administrar as taxas sem levar em consideração as demandas do presidente.
No início deste mês, quando a Suprema Corte ouviu os argumentos no caso histórico da Governadora do Fed, Lisa Cook, que está processando o governo Trump pela tentativa de demissão do cargo de formuladora de política monetária devido a alegações não comprovadas de fraude hipotecária, estavam presentes Cook, Powell, o governador do Fed Michael Barr e o ex-presidente do Fed, Ben Bernanke.
Questionado na quarta-feira (28) sobre o motivo de sua presença, Powell disse que a independência do Fed estava em jogo.
“Eu diria que este caso é talvez o caso jurídico mais importante nos 113 anos de história do Fed, e, ao refletir sobre isso, achei que seria difícil explicar por que não compareci”, destacou Powell.
Os atuais membros do Fed têm evitado comentar os ataques de Trump, mas vários manifestaram apoio a Powell em aparições públicas desde então, como John Williams, de Nova York, e Alberto Musalem, de St. Louis.
Pouco depois da divulgação do vídeo pelo chair do Fed, uma declaração conjunta assinada por todos os ex-presidentes do Fed ainda vivos – Bernanke, Janet Yellen e Alan Greenspan – expressou apoio à postura de Powell em relação a Trump.
A carta – também assinada por outros ex-funcionários de alto escalão do governo, como os ex-secretários do Tesouro Henry Paulson e Robert Rubin – afirma que a investigação federal “é uma tentativa sem precedentes de usar ataques da promotoria para minar essa independência”.
“É assim que a política monetária é feita em mercados emergentes com instituições frágeis, com consequências altamente negativas para a inflação e para o funcionamento das economias de forma mais ampla”, escreveram.
“Isso não tem lugar nos Estados Unidos, cuja maior força é o Estado de Direito, que está na base do nosso sucesso econômico”.