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Por mais de uma década, o limite de 1,5°C de aquecimento global acima dos níveis pré-industriais funcionou como uma linha de defesa simbólica e científica contra os efeitos mais extremos da crise climática.

Hoje, esse limite está prestes a ser definitivamente ultrapassado, ou já o foi, segundo parte da comunidade científica.

Dados consolidados dos últimos três anos indicam que, pela primeira vez, a temperatura média global manteve-se acima desse patamar crítico por um período prolongado.

Em 2024, o aquecimento atingiu 1,55°C, enquanto 2023 e 2025 ficaram perigosamente próximos do mesmo nível.

Para pesquisadores, trata-se de um sinal inequívoco de que o mundo entrou em um cenário de “overshoot”, em que o aquecimento excede metas acordadas e passa a operar fora do controle humano.

A avaliação é apresentada em uma análise publicada pelo Yale Environment 360, plataforma da Escola de Meio Ambiente da Universidade Yale, assinada pelo jornalista científico Fred Pearce.

Embora o Acordo de Paris defina o limite de 1,5°C como uma média de longo prazo, geralmente calculada em janelas de 20 anos para suavizar variações naturais como o El Niño, estudos recentes sugerem que o planeta já pode ter cruzado esse limiar de forma estrutural.

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Do aquecimento gradual ao colapso abrupto

O temor central dos cientistas não é apenas o aumento contínuo das temperaturas, mas a possibilidade de que o sistema climático deixe de responder de forma gradual e passe a sofrer mudanças súbitas e irreversíveis.

São os chamados pontos de inflexão climáticos, limites a partir dos quais grandes sistemas naturais entram em colapso e não podem ser restaurados.

“Até agora, a natureza conseguiu absorver parte dos danos que causamos”, diz Johan Rockström, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Impacto Climático de Potsdam. “Mas essa capacidade está se esgotando.”

Entre os sistemas sob maior risco estão as grandes calotas de gelo da Groenlândia e da Antártida Ocidental, a floresta amazônica, os recifes de coral tropicais e a circulação oceânica do Atlântico Norte, conhecida como AMOC, responsável por regular o clima da Europa e da costa leste da América do Norte.

Segundo James Hansen, climatologista da Universidade Columbia, o mundo pode atingir 2°C de aquecimento já em 2045 caso as emissões sigam elevadas.

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O avanço seria impulsionado por dois fatores simultâneos: a persistência das emissões de gases de efeito estufa e o enfraquecimento dos chamados sumidouros naturais de carbono, como florestas e oceanos.

Natureza deixa de absorver carbono

Por décadas, ecossistemas terrestres e marinhos absorveram cerca de metade do CO₂ emitido pela atividade humana. Esse mecanismo, porém, dá sinais claros de colapso.

Pesquisas recentes apontam uma redução sem precedentes da capacidade de absorção de carbono entre 2023 e 2024, impulsionada por secas extremas, incêndios florestais, que dobraram globalmente nas últimas duas décadas, e pelo estresse térmico sobre florestas tropicais.

A floresta africana, por exemplo, deixou de ser um sumidouro e passou a emitir mais carbono do que absorve.

O cenário é ainda mais grave na Amazônia. Projeções indicam que o colapso do bioma liberaria bilhões de toneladas de CO₂ na atmosfera, acelerando o aquecimento global.

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Ao mesmo tempo, o degelo do permafrost no Ártico já libera metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono.

Estudo recente concluiu que o metano terá papel “crítico” na amplificação do aquecimento em cenários de overshoot, tornando qualquer tentativa posterior de reversão extremamente difícil.

Impactos já visíveis e riscos irreversíveis

Os efeitos do aquecimento acelerado já se manifestam de forma concreta. Ondas de calor letais se intensificam na Índia, na África e no Oriente Médio; incêndios florestais sem precedentes atingem os Estados Unidos; tempestades tropicais causam prejuízos crescentes.

Segundo a Câmara Internacional do Comércio, eventos climáticos extremos custaram mais de US$ 2 trilhões à economia global na última década, afetando diretamente cerca de 20% da população mundial.

Nos oceanos, o aquecimento recorde desencadeou uma sequência de ondas de calor marinhas.

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Cientistas afirmam que os recifes de coral tropicais podem já ter ultrapassado seu ponto de inflexão, com risco de extinção quase total até meados do século. O impacto sobre a pesca e a biodiversidade marinha seria devastador.

No Ártico, a Groenlândia perde cerca de 30 milhões de toneladas de gelo por hora. Caso o derretimento se torne irreversível, algo que pode ocorrer em torno de 1,5°C, o nível dos oceanos pode subir até 7 metros ao longo dos próximos séculos.

Soluções tardias e dilemas perigosos

Diante desse cenário, cresce o debate sobre emissões negativas, estratégias para remover carbono da atmosfera. Entre as alternativas estão o reflorestamento em larga escala, a captura industrial de CO₂ e tecnologias ainda experimentais de geoengenharia.

Nenhuma delas, porém, parece viável na escala e na velocidade necessárias. Para reduzir a temperatura média global em apenas 0,1°C, seria preciso remover cerca de 200 bilhões de toneladas de CO₂, segundo o IPCC.

A captura direta do ar, por exemplo, custa atualmente centenas de dólares por tonelada.

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Mais controversa ainda é a proposta de bloquear parte da radiação solar, por meio da injeção de aerossóis na estratosfera. O governo britânico investiu US$ 80 milhões em pesquisas sobre o tema.

Críticos alertam que a técnica não resolve a causa do problema e pode alterar padrões climáticos de forma imprevisível.

Um futuro cada vez mais estreito

Apesar da gravidade do quadro, a resposta política permanece frágil.

Apenas em 2025, durante a conferência climática da ONU em Belém, os negociadores reconheceram oficialmente a necessidade de lidar com o overshoot.

Ainda assim, sem metas claras ou instrumentos concretos. Até hoje, apenas a Dinamarca estabeleceu um objetivo nacional de emissões negativas.



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