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Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assumiu o cargo há um ano com a promessa de fazer frente à China, a previsão era de tempo nublado para a segunda maior economia do mundo, que vinha apresentando sinais de estagnação. Doze meses depois, Pequim anunciou que, em 2025, registrou superávit recorde de US$ 1,2 trilhão (R$ 6,26 trilhões) na balança comercial — equivalente a metade de todo o PIB do Brasil —, as entradas mensais de divisas chegaram a US$ 100 bilhões, outra alta histórica, enquanto o uso global da moeda chinesa, o yuan, se expandiu. E o gigante asiático tem o ocupante do Salão Oval a agradecer.

Ao passo que as políticas de Trump vêm tensionando os laços com os aliados tradicionais dos Estados Unidos, a China aproveitou para fortalecer as relações com essas nações, incluindo Canadá e Índia, antes reticentes em negociar com o país de Xi Jinping, e expandir sua influência política e econômica global. Em meio às manobras tarifárias imprevisíveis de Washington, e apoiada por sua economia de US$ 20 trilhões e mercados de ações e títulos avaliados em US$ 45 trilhões, Pequim emerge como uma “parceira estável”, segundo analistas.

Nesta quarta-feira, 28, quem aportou por lá foi o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, na esperança de revitalizar os laços comerciais. A visita pode marcar uma mudança drástica, após anos de uma relação de animosidade devido à repressão de Pequim às liberdades políticas em Hong Kong, um território que já foi democrático sob tutela britânica, ao apoio da China à Rússia na guerra da Ucrânia e às alegações de que espiões chineses atuam para extrair segredos de políticos em Londres.

Britain's Prime Minister Keir Starmer receives a bouquet of flowers upon his arrival at an airport in Beijing on January 28, 2026. (Photo by Kin Cheung / POOL / AFP)
Primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, chega a Pequim, China. 28/01/2026 – (Kin Cheung/AFP)

Amigos, amigos, negócios à parte

Starmer passará quatro dias na China, na primeira viagem de um premiê britânico para lá desde 2018. Ela vem na esteira da visita do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no início deste mês — o último líder de seu país também havia marcado presença apenas em 2017 —, durante a qual assinou um acordo para eliminar barreiras comerciais e forjar uma nova relação estratégica. Carney descreveu a nação asiática como “um parceiro mais previsível e confiável” (mais do que quem, ele não especificou, mas decerto referia-se aos Estados Unidos).

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O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney (à esquerda), e o presidente da China, Xi Jinping, durante reunião em Pequim. 16/11/2026
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney (à esquerda), e o presidente da China, Xi Jinping, durante reunião em Pequim. 16/11/2026 (Mark Carney/Twitter)

Índia e China também deixaram de lado uma rivalidade que se estende há décadas para priorizar os interesses comuns na área comercial e tecnológica, quando, em setembro passado, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, viajou a Pequim para participar de um cúpula regional sobre segurança e economia e se encontrou com Xi. Os dois assumiram compromissos como a abertura de voos diretos e aumento do comércio bilateral, após a Casa Branca impor uma tarifa de 50% sobre a importação de produtos de Nova Délhi sob o argumento de que o país do Sudeste Asiático está financiado a guerra na Ucrânia com a compra de petróleo da Rússia.

Putin, Modi e Xi
Putin, Modi e Xi durante cúpula na China – 01/09/2025 (SUO TAKEKUMA / POOL/AFP)
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Recorde atrás de recorde

No ano passado, em meio a embates tarifários, as exportações chinesas para os Estados Unidos caíram 20% em 2025, mas aumentaram 25,8% para a África, 7,4% para a América Latina, 13,4% para o Sudeste Asiático e 8,4% para a União Europeia. A China bateu sua meta de crescimento (5%) e adotou uma série de medidas para impulsionar o investimento estrangeiro, incluindo programas piloto em Pequim e Xangai para expandir e abrir novos mercados em serviços como telecomunicações, saúde e educação.

O país registrou a maior entrada mensal de divisas da história, de US$ 100,1 bilhões em dezembro, e suas reservas cambiais oficiais atingiram o maior patamar em 10 anos, chegando a US$ 3,36 trilhões. O índice de Xangai subiu 27% no último ano, superando as ações americanas, o volume de negócios atingiu um recorde histórico e o uso global do yuan se expandiu — mais da metade das transações transfronteiriças da China agora são liquidadas na moeda local (há 15 anos, era quase zero).

Xi deve um retumbante obrigado a Donald Trump.



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