
Em Pacaraima, Roraima, imagens divulgadas nas redes sociais mostravam militares posicionados perto de cones que bloqueavam o acesso.
Uma nova reunião emergencial do governo brasileiro será feita no fim da tarde deste sábado.
+ Ataques dos EUA e captura de Maduro ultrapassam ‘linha inaceitável’, diz Lula
No momento, a avaliação é de que instabilidades em território da Venezuela podem gerar impactos diretos sobre o Brasil, sobretudo na região Norte do país.
Em nota, o Ministério da Justiça disse se preparar para receber um aumento de refugiados da Venezuela. Dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), órgão ligado à pasta, já mostravam um aumento no número de venezuelanos que entraram no Brasil após as primeiras operações americanas na região, em setembro.
‘Afronta gravíssima’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manifestou neste sábado, 3, sobre os ataques dos Estados Unidos contra território venezuelano, que levaram à “captura” de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.
Em nota, Lula afirmou que os atos “ultrapassam uma linha inaceitável”, representando uma “afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.
“Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”, disse o presidente em texto.
A ação, segundo Lula, ecoa “os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”.
“A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação”, acrescenta o texto.
Os ataques americanos, que levaram à captura do presidente Nicolás Maduro, ocorreram nas primeiras horas deste sábado em Caracas e arredores. Autoridades venezuelanas também relataram ataques a alvos nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira.
Pouco antes das 2h da manhã, horário local, as primeiras explosões foram ouvidas sobre Caracas, juntamente com o som de aeronaves sobrevoando a capital, segundo relatos do New York Times. Bombardeios aéreos foram relatados em Fuerte Tiuna, a principal base militar de Caracas, localizada ao sul da cidade, que ficou completamente sem energia. Ataques também ocorreram no Quartel de la Montaña e na Base Aérea de La Carlota.
Em uma curta entrevista ao jornal The New York Times, Donald Trump afirmou que a operação foi “brilhante”: “Planejamento bem-feito e tropas e pessoas excelentes, excelentes”, disse Trump. “Foi uma operação brilhante, na verdade.”
Segundo reportagem da emissora americana CNN, Maduro e a primeira-dama Cilia Flores foram arrastados do quarto em que estavam por militares americanos durante a madrugada. À agência de notícias Associated Press, o líder do partido governista venezuelano, Nahum Fernández, disse que ambos estavam na residência dentro do complexo militar do Forte Tiuana.
A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que Caracas não sabe o paradeiro de Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Em pronunciamento à rede pública VTV, Rodríguez exigiu “prova de vida imediata do governo do presidente Donald Trump sobre as vidas do presidente Maduro e da primeira-dama”.
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Em entrevista à Fox News, Trump afirmou que Maduro está a bordo do navio de guerra americano Iwo Jima e segue para Nova York, onde será julgado. Mais cedo, a secretária de Justiça dos Estados Unidos, Pam Bondi, afirmou que o presidente da Venezuela “em breve enfrentará a força total da Justiça americana, em solo americano e em tribunal americano”.
Escalada de tensão
No final de outubro, Trump revelou que havia autorizado a CIA a conduzir operações secretas dentro da Venezuela, aumentando as especulações em Caracas de que Washington queria derrubar Nicolás Maduro. Fontes próximas à Casa Branca afirmam que o Pentágono apresentou a Trump diferentes opções, incluindo ataques a instalações militares venezuelanas — como pistas de pouso — sob a justificativa de vínculos entre setores das Forças Armadas e o narcotráfico.
Os EUA acusam Maduro de liderar o Cartel de los Soles — designado como organização terrorista estrangeira em novembro — e oferecem uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levem à captura do chefe do regime chavista. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também foi acusado por Trump de ser “líder do tráfico de drogas” e “bandido”. Em paralelo, intensificam-se os ataques a barcos de Organizações Terroristas Designadas, como define o governo americano, no Caribe e no Pacífico. Ao menos 83 tripulantes foram mortos.
Em novembro, militares americanos de alto escalão apresentaram opções de operações contra Caracas a Trump. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan Caine, e outros oficiais entregaram planos atualizados, que incluíam ataques por terra. Segundo a emissora CBS News, a comunidade de Inteligência dos EUA contribuiu com o fornecimento de informações para as possíveis ofensivas na Venezuela, que variam em intensidade.
O planejamento militar ocorre em meio à crescente mobilização militar americana na América Latina e ao aumento das expectativas de uma possível ampliação das operações na região, em atos considerados “execuções extrajudiciais” pela Organização das Nações Unidas (ONU). Além do porta-aviões, destróieres com mísseis guiados, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6.500 soldados foram despachados para o Caribe, enquanto Trump intensifica o jogo de quem pisca primeiro com o governo venezuelano.
Os incidentes geraram alarme entre alguns juristas e legisladores democratas, que denunciaram os casos como violações do direito internacional. Em contrapartida, Trump argumentou que os EUA já estão envolvidos em uma guerra com grupos narcoterroristas da Venezuela, o que torna os ataques legítimos. Autoridades afirmaram ainda que disparos letais são necessários porque ações tradicionais para prender os tripulantes e apreender as cargas ilícitas falharam em conter o fluxo de narcóticos em direção ao país.
Dados das Nações Unidas enfraquecem o discurso de caça às drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 indica que o fentanil — principal responsável pelas overdoses nos EUA — tem origem no México, e não na Venezuela, que praticamente não participa da produção ou do contrabando do opioide para o país. O documento também aponta que as drogas mais usadas pelos americanos não têm origem na Venezuela — a cocaína, por exemplo, é consumida por cerca de 2% da população e vem majoritariamente de Colômbia, Bolívia e Peru.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no mês passado revelou que apenas 29% dos americanos apoiam o uso das Forças Armadas dos Estados Unidos para matar suspeitos de narcotráfico, sem o devido processo judicial, uma crítica às ações de Trump. Em um sinal de divisão entre os apoiadores do presidente, 27% dos republicanos entrevistados se opuseram à prática, enquanto 58% a apoiaram e o restante não tinha opinião formada. No Partido Democrata, cerca de 75% dos eleitores são contra as operações, e 10% a favor.