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“Aconteceu, portanto pode acontecer de novo”, escreveu o italiano Primo Levi, sobrevivente e testemunha do Holocausto. A frase lembra que devemos nos manter alertas quando algo terrível é esquecido sem punição e reflexão. Em 2025, obras notáveis abordaram feridas desse tipo, do filme nacional O Agente Secreto, ambientado na ditadura, ao americano Uma Batalha Após a Outra, que fala de extremismo, passando pela minissérie Adolescência, sobre a vida perigosa dos jovens nas redes, e livros de autores como a chilena Isabel Allende, que revê fantasmas da história de seu país. Em 2025, enfim, a produção cultural encarou temas espinhosos — e saiu engrandecida.
CINEMA
1- O Agente Secreto (Brasil, 2025)
Marcelo (Wagner Moura) é um homem cercado por mistérios. Ao chegar em Recife, sua cidade natal, ele se instala no prédio administrado por uma idosa onde estão outros “refugiados”, nome dado aos moradores que se escondem de algo ou de alguém. A capital de Pernambuco é apenas um ponto de passagem, onde ele vai reencontrar o filho que mora com os avós para depois fugir novamente. Enquanto espera pela documentação falsa, é alocado em um trabalho numa repartição pública. Ao longo de poucos dias, durante o Carnaval de 1977, acontece de tudo um pouco: seu caminho cruza com o de policiais corruptos, mulheres interessadas em algo mais que amizade, matadores de aluguel e até com uma perna cabeluda encontrada na boca de um tubarão. Os absurdos adicionam humor e tensão à trama criada pelo diretor Kleber Mendonça Filho, que enriqueceu o roteiro e o visual do longa com memórias de sua infância no Recife durante a ditadura militar. Ao contrário dos muitos filmes nacionais sobre o período, que pesam a mão no drama ou na violência, O Agente Secreto transforma o regime num estado de espírito: quando a lei protege alguns e persegue outros, ninguém está seguro. Filme mais premiado no Festival de Cannes, com distinções para o diretor e o ator principal, a produção segue para representar o Brasil no Oscar de 2026.

2- Uma Batalha Após a Outra (One Battle After Another, Estados Unidos, 2025)
Boa parcela da arte feita em 2025 tentou refletir o tumulto político dos Estados Unidos em pleno segundo mandato de Donald Trump, mas nenhuma outra obra do ano o fez com tanto primor quanto o décimo longa-metragem do cineasta Paul Thomas Anderson. Com base no romance Vineland (1990), de Thomas Pynchon, o filme acompanha anos da vida de Bob (Leonardo DiCaprio), um guerrilheiro especializado em explosivos que se apaixona perdidamente por uma camarada errática de seu movimento de extrema esquerda. Ela, porém, também chama a atenção do soldado Steven Lockjaw (Sean Penn), um supremacista branco. Do triângulo amoroso, surge uma bebê que, dezesseis anos depois, é sequestrada pelo militar e provoca perseguição épica pela Califórnia, amarrada por atuações exemplares de todo o elenco. Apesar de perspicaz em suas referências à polarização americana, o longa jamais é verborrágico e prioriza seu banquete visual inovador, marcado por uma perseguição automobilística inesquecível.
3- Pecadores(Sinners, Estados Unidos/Austrália/Canadá, 2025)
O ano que passou foi prolífico para o terror não só em termos quantitativos: diversas produções inocularam algo nobre no gênero, a possibilidade de refletir sobre o mal-estar na civilização atual. Sucessos como A Hora do Mal e Faça Ela Voltar se esmeraram nisso. Mas nada superou o impacto e a excelência de Pecadores. Dirigido por um Ryan Coogler que provou a capacidade de ir muito além do apelo pop de Pantera Negra, o longa narra a história de dois gêmeos negros — interpretados por Michael B. Jordan — que voltam à cidade natal, no sul dos Estados Unidos do começo do século XX, para montar um clube de blues. Dessa premissa nasce uma trama assustadoramente vivaz, que fala de racismo e criaturas sobrenaturais enquanto celebra a cultura dos negros americanos.
4- Frankenstein (México/Estados Unidos, 2025)
Publicado há mais de 200 anos, o romance Frankenstein ou o Prometeu Moderno (1818), da inglesa Mary Shelley, revelou-se ao longo do tempo uma alegoria que não esgota. Nos dias atuais, quando a inteligência artificial e outros avanços dão poder desmedido a alguns poucos bilionários geniais da tecnologia, ganhou ressonância ainda maior: a história do cientista que brinca de Deus ao criar um monstro a partir de pedaços de cadáveres se impõe como alerta poderoso. Em sua refinada versão, o mexicano Guillermo del Toro teve a sabedoria de buscar o máximo de fidelidade ao livro, realçando sua potência por meio do visual impecável e das atuações de Oscar Isaac, como o Dr. Victor Frankenstein, e de Jacob Elordi, que faz um monstro humanista e extraordinário.
5- Foi Apenas um Acidente (Yek Tasadef Sadeh, Irã/França/Luxemburgo/Estados Unidos, 2025)
Proibido pelo governo do Irã de fazer filmes, sob acusação de propaganda contra o regime, o diretor Jafar Panahi trabalha de modo clandestino desde 2011. O uso de equipe enxuta e poucas locações fez dele um mestre do roteiro — e elevou a fórmula ao auge com o excelente Foi Apenas um Acidente, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano. Na trama, um grupo inusitado de iranianos, presos pelo regime no passado, se une quando um deles crê ter sequestrado o torturador que os aterrorizou. Na tentativa de confirmar sua identidade, eles passam por situações cômicas e dramáticas, enquanto decidem o que fazer com o prisioneiro. Um thriller sobre ética, vingança e perdão.
TELEVISÃO

1- Adolescência (Netflix)
Nenhuma outra produção do streaming repercutiu tanto em 2025 quanto Adolescência, que se transformou rapidamente na minissérie mais vista da história da Netflix. Lançada sem alarde pela plataforma, a trama causou comoção imediata ao retratar a história do jovem Jamie Miller (Owen Cooper), garoto de 13 anos que é preso como suspeito do assassinato de uma colega de classe. Idealizada por Stephen Graham, que também dá vida ao pai do réu, a produção se debruça sobre um tema atualíssimo e que assusta famílias em todo o mundo: o isolamento dos jovens em bolhas virtuais e os perigos dos fóruns on-line que disseminam a chamada cultura incel, capaz de transformar adolescentes tímidos em figuras machistas e violentas, que culpam mulheres pela rejeição masculina. Visceral e realista, a história ultrapassou as telas e impôs reflexões em lares e escolas, convertendo-se em alerta valioso para pais e responsáveis e em instrumento de conscientização sobre temas como bullying e misoginia. Catalisadora de discussões tão complexas quanto necessárias, a trama também inovou estilisticamente: todos os quatro episódios foram gravados em plano-sequência, dando vazão às emoções sem cortes ou interrupções e rendendo ao estreante Owen Cooper o título de artista mais jovem a conquistar o Emmy de melhor ator. Uma surpresa muito bem-vinda em um ano marcado por tramas viscerais.

2- The Pitt (HBO Max)
Na trilha de outras séries de 2025 que tocam em assuntos caros ao mundo real, a produção médica The Pitt renovou o filão dominado por amenidades como Grey’s Anatomy com uma proposta perturbadora: cada um dos quinze episódios transcorre ao longo de uma hora do plantão de um pronto-socorro liderado pelo Dr. Robby (Noah Wyle), um médico experiente mas traumatizado pela morte de seu mentor na pandemia — e às voltas com o sucateamento do sistema de saúde americano. Filmada majoritariamente em plano-sequência, a série acompanha diversos casos, de uma mãe preocupada com os pensamentos feminicidas do filho adolescente, passando por universitários morrendo de overdose por fentanil, até desaguar no auge eletrizante: um tiroteio em massa num festival de música leva dezenas de vítimas ao hospital, tornando o local uma zona de guerra. Dosando bem o drama com atuações de primeira, e ainda ressaltando a importância de manter a saúde mental dos profissionais de saúde, a série foi uma das melhores surpresas do ano.
3- O Estúdio (Apple TV)
Série que consolida 2025 como o ano do plano-sequência na televisão, o arrojado O Estúdio, produzido pela Apple TV, tornou-se a comédia mais laureada do Emmy em uma única edição do prêmio, com treze estatuetas, incluindo as de melhor série, roteiro, direção e ator — para Seth Rogen, criador da trama e intérprete do protagonista Matt Remick, o chefão do Continental, um estúdio fictício em Hollywood. Inspirada nos absurdos que acontecem nos bastidores da indústria, a trama acompanha as peripécias do executivo de alto escalão apaixonado por cinema, mas que descobre que o cargo exige sacrifícios como produzir um filme ridículo sobre uma bebida em pó saborizada chamada Kool-Aid, ou lidar com o estrelismo de artistas como Olivia Wilde e Zoë Kravitz e com a pressão de diretores vencedores do Oscar do calibre de Ron Howard e Martin Scorsese. O mais curioso é que toda essa gama de famosos reais topou atuar na série, interpretando a si mesmos. O texto irônico se alia ao virtuosismo visual para brindar o espectador com um pacote irresistível.
4- Os Donos do Jogo (Netflix)
Apesar do domínio estrangeiro, o Brasil também marcou presença entre as histórias mais aclamadas do ano. Lançada pela Netflix no último trimestre, Os Donos do Jogo provou que o país é capaz de levar para as telas toda a complexidade e violência das clássicas tramas de máfia exploradas à exaustão por Hollywood. Com um ar de O Poderoso Chefão e DNA extremamente brasileiro, a série de Heitor Dhalia dramatiza com liberdade ficcional o submundo do jogo do bicho, acompanhando a guerra de sucessão familiar entre os clãs mais poderosos da contravenção carioca e a modernização do jogo, com a chegada os cassinos on-line. Envolvente e bem produzida, a história furou a bolha nacional e fez sucesso também no exterior, garantindo uma segunda temporada.
5- Mussolini: o Filho do Século (Mubi)
O avanço da extrema direita e de governos que flertam com o autoritarismo em todo o mundo fez de 2025 terreno fértil para tramas com forte teor político. Em um cenário cada vez mais polarizado, e com absurdos normalizados, Mussolini: o Filho do Século se destaca como uma produção histórica certeira, que usa a ascensão do ditador italiano para reacender a memória dos horrores do passado e tecer alertas valiosos sobre o presente da humanidade. Inspirada no primeiro livro da aclamada pentalogia de Antonio Scurati, a série comandada por Joe Wright explora as motivações do tirano, seus relacionamentos amorosos, desvios de caráter e temores, compondo um personagem complexo e reconhecível em diversas camadas da sociedade, especialmente nas elites do poder político.
MÚSICA

1- Lux, de Rosalía
Bastou uma canção para que a espanhola Rosalía, expoente de uma releitura turbinada do flamenco, alterasse completamente as expectativas em torno de si. Berghain — cantada com a veterana Björk e o vanguardista americano Yves Tumor — chegou às plataformas de streaming duas semanas antes de Lux e surpreendeu com a base instrumental frenética tocada pela Orquestra Sinfônica de Londres e o tratamento sacro aplicado ao título hedonista, nome de uma escandalosa casa noturna em Berlim. Tal justaposição é aprofundada ao longo das outras catorze faixas do disco, cada qual inspirada em uma santa diferente. Olhando não só para as histórias de cada figura, a jovem também levou em consideração suas origens e fez questão de cantar em suas respectivas línguas. Desse modo, o trabalho sincrético não reuniu apenas estéticas musicais variadas como treze línguas diferentes, do português ao ucraniano — exemplo do apuro, da disciplina e da inovação de que o pop de 2025 carecia. Em outras palavras, um milagre.

2- Hamilton de Holanda Trio — Live in NYC, de Hamilton de Holanda
Embaixador informal da música brasileira, Hamilton de Holanda viaja há anos pelo mundo com seu fiel bandolim de dez cordas, uma criação própria que aproxima o instrumento de um violão e encanta qualquer plateia. Uma delas foi a do lendário clube Dizzy’s, em Nova York, onde o músico gravou o disco ao vivo junto do baterista Thiago “Big” Rabello e do tecladista Salomão Soares, em outubro de 2024. Capturando interações melódicas com o público e improvisos encantadores que bebem do choro, o registro é prova viva de que “cabe o mundo inteiro em uma música”, como disse Holanda a VEJA.

3- Ain’t Done With the Blues, de Buddy Guy
Buddy Guy chegou a Chicago nos anos 1950 determinado a viver de música. Apesar de conquistar seus pares com o talento na guitarra, incluindo o precursor do blues Muddy Waters, ele só foi consagrado pelas grandes premiações da música nos anos 1990. Para alguém que foi devidamente reconhecido tão tardiamente, faz mais do que sentido Guy declarar que “ainda não terminou com o blues”, como diz o título de seu último álbum. No disco lançado em 30 de julho, quando o guitarrista completou 89 anos, ele canta sobre o lugar que o blues ocupa em sua vida, faz homenagens a veteranos como B.B. King e relembra altos e baixos de sua trajetória.
LIVROS

Meu Nome É Emilia Del Valle, de Isabel Allende (tradução de Ivone Benedetti; Bertrand Brasil; 308 págs.)
Fruto de um breve relacionamento entre uma noviça irlandesa e um forasteiro chileno na Califórnia, Emilia del Valle, nascida em 1866, destoa das demais garotas de sua época: ela não pensa em casamento, gosta de ler e escrever e tece histórias sanguinolentas — passatempo que se torna fonte de renda quando ela vende folhetins sob um pseudônimo masculino. Contratada por um jornal, Emilia vira correspondente da guerra civil que tomou o Chile no fim do século XIX. O drama fictício, com pitadas de realidade, serve como um distante precursor de A Casa dos Espíritos, livro monumental da autora, de 1982, sobre uma família chilena afetada pela ditadura — trama que remete à trajetória da própria autora, que fugiu da opressão de Augusto Pinochet. Prolífica, a romancista de 83 anos tem um olhar afiado para o passado de seu país — lente pela qual espelha dilemas do presente.

Sem Despedidas,de Han Kang (tradução de Natália T. M. Okabayashi; Todavia; 272 págs.)
Han Kang consolidou o prestígio coreano nas letras em 2024, ao receber o Nobel de Literatura. A escritora de 54 anos ficou marcada na infância pela violência política e estatal contra um protesto estudantil em sua cidade natal, em 1980. Em Sem Despedidas, os ecos de um trauma coletivo estão de volta, ao revisitar um massacre que marcou o país asiático nos anos 1940. Assim, ela mergulha no tema mais caro de sua ficção: o desajuste social provocado pelas lacunas imemoriais de um povo. Entre cenários oníricos e reflexões sobre identidade, a autora reafirma sua potência literária e seu desejo de recontar a história sul-coreana — dessa vez, sob a atenção do mundo inteiro.

Dança de Enganos, de Milton Hatoum (Companhia das Letras; 256 págs.)
Em 2017, bem antes da atual leva de produções ficcionais que reacendem o debate sobre os anos de chumbo da ditadura militar, o amazonense Hatoum iniciou a saga O Lugar Mais Sombrio, que expõe o impacto do regime autoritário sobre a vida das pessoas por meio da história de Martim, estudante crescido entre Brasília e São Paulo a partir do final dos anos 1960 — e que tem seu destino atingido pela atmosfera tóxica do período. Nesse terceiro livro, o ponto de vista é o da mãe do protagonista, Lina. Em meio a um turbilhão de memórias, ela expõe a razão de seu desaparecimento quando o filho era criança, trauma que ele carregou pela vida inteira.
Publicado em VEJA de 24 de dezembro de 2025, edição nº 2976