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Fundado em junho de 1985, pouco depois do fim da ditadura militar, o Partido Liberal (PL) surgiu como agremiação de defesa da livre concorrência, da abertura internacional do mercado e de eleições diretas. Era, sem dúvida, um bom pacote de projetos. De lá para cá, apoiou qualquer governo, de Fernando Collor ao PT, passando por FHC, e nunca deixou de ser apenas uma legenda intermediária do Centrão, com três dezenas de deputados. Tudo mudou em novembro de 2021, quando o então presidente Jair Bolsonaro filiou-se ao partido, levando com ele a nova direita, que no ano seguinte daria ao grupo a maior bancada na Câmara, com 99 deputados e 1 bilhão de reais anuais dos fundos eleitoral e partidário. Às vésperas de nova eleição, no entanto, uma série de reveses põe em risco o próximo voo eleitoral da sigla.

O mais recente episódio deixou em má situação a cúpula do PL no Congresso. Na sexta-feira 19, a Polícia Federal bateu às portas de endereços do líder na Câmara, Sóstenes Cavalcante, e do vice-líder da oposição, Carlos Jordy, ambos do Rio de Janeiro. Os agentes cumpriam sete mandados de busca e apreensão para apurar um suposto esquema de desvio da cota parlamentar por meio de empresas de aluguel de carro com fortes indícios de serem de fachada. No flat de Sóstenes, em Brasília, havia 470 000 reais em dinheiro vivo, em fotografia com alto poder destrutivo em uma campanha eleitoral. O deputado disse que a quantia era fruto da venda de um imóvel, que não se lembrava das datas de compra e transferência e que não levou a dinheirama para um banco por “lapso” e “correria de trabalho”. A explicação soou estranha porque em 2022 ele declarou à Justiça Eleitoral ter um patrimônio de apenas 4 926 reais, em duas contas bancárias. Disse, depois, poder provar a origem lícita do dinheiro, e tentou se vacinar contra o impacto eleitoral: “Essa investigação é mais uma para perseguir quem é da oposição, conservador e de direita. Daqui até a eleição vão tentar fazer todo tipo de cortina de fumaça”.

O baque da ação contra Sóstenes foi grande para a direita porque ele é um dos mais eloquentes porta-vozes do ex-presidente no Congresso. Mas não foi o único: na mesma semana, dois expoentes do bolsonarismo, Eduar­do Bolsonaro e Alexandre Ramagem, perderam os mandatos na Câmara. Cassado por excesso de faltas, o filho Zero Três é réu no STF por obstrução de Justiça praticada a partir dos Estados Unidos, para onde se mudou em meio ao cerco a seu pai. Deputado mais votado da história do Brasil em 2018 e o quarto em 2022, ele era uma das apostas eleitorais do PL — agora dificilmente será candidato. Já Ramagem foi o nome do partido à prefeitura do Rio em 2024, bancado pelo clã Bolsonaro, quando levou a maior fatia do fundo eleitoral no país (26 milhões de reais). Os dois se juntam a Carla Zambelli, terceira mais votada em 2022, que perdeu a cadeira depois de ter sido condenada por dois crimes: invasão a sistema da Justiça e perseguição armada a um cidadão em São Paulo (veja o quadro).

arte Sóstenes

A perda de poder de fogo eleitoral também se dá por outras razões. Uma delas é o encolhimento da bancada, que perdeu treze cadeiras. Entre os que saíram estão outros campeões de voto, como o ex-ministro Ricardo Salles (foi para o Novo) e o ex-secretário da Segurança Pública de São Paulo Guilherme Derrite (hoje no PP). Legendas mais pragmáticas de centro, PP e Republicanos foram as que mais ganharam cadeiras no período (três cada uma). “O PL se tornou uma legenda fortemente personalista, ancorada na figura de Bolsonaro”, diz Murilo Medeiros, cientista político da UnB.

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O desgaste de imagem pode ser um problema para Flávio Bolsonaro. Escolhido pelo pai para representá-lo na eleição presidencial, o senador tem por ora só o apoio do PL e pode ser chamuscado pelas más notícias envolvendo a sigla. “Ao trazer essa questão da corrupção para a direita, todo o campo perde”, diz a professora da ESPM Denilde Holzhacker. Para ela, a capacidade do PL de manter sua bancada vai depender da articulação nos estados, mas a fragmentação conservadora em curso no país não ajuda. Rodrigo Prando, da Mackenzie, diz que a sociedade, em larga medida, se conecta com os valores defendidos pela direita, o que pode ser um ativo. “A depender da exploração de temas como segurança, o PL pode manter a bancada, mas não sei se na mesma dimensão dos tempos áureos do bolsonarismo. O contexto agora é outro.”

O fato é que a sequência de tropeços acende um alerta no PL. O inferno astral da sigla, iniciado com a derrocada de seu maior líder, preso por tentativa de golpe de Estado, pode estar longe do fim. Contudo, na política brasileira, é sempre bom ter calma, dada a inesperada velocidade das mudanças.

Publicado em VEJA de 24 de dezembro de 2025, edição nº 2976



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