
Tratados de livre comércio são complexos e polêmicos por natureza, dada a necessidade de acomodar interesses conflitantes. As dificuldades crescem ainda mais quando envolvem dois blocos econômicos que somam 33 países e 720 milhões de habitantes. Mas, depois de 26 anos de negociações, o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul parecia caminhar para a conclusão. A assinatura ocorreria durante a Cúpula do Mercosul realizada em Foz do Iguaçu (PR) no sábado 20 de dezembro. Na última hora, porém, a Comissão Europeia, braço executivo da UE, adiou o ato para janeiro. “Infelizmente, a Europa ainda não se decidiu”, afirmou o presidente Lula. A frustração foi compartilhada por outros líderes sul-americanos.
A Itália da primeira-ministra Giorgia Meloni, que teme uma invasão de produtos agrícolas brasileiros, encabeçou o adiamento e exige mais proteção contra a concorrência. “A dúvida é quanto ela se dobrará ao lobby agrícola”, diz Eduardo Mello, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas. Isso não significa que os italianos ficarão desamparados. Pelas salvaguardas já previstas no documento, os europeus poderão, por exemplo, suspender o acesso preferencial de produtos como carne bovina, aves e açúcar se as importações crescerem mais de 8% ou se os preços caírem o mesmo tanto. Tanta proteção é alvo de críticas. “Isso é um absurdo”, diz Sueme Mori, diretora de relações internacionais da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária. “Precisamos de uma contramedida.” Para aplacar os ânimos, o chanceler Mauro Vieira declarou que o Mercosul contará com seu próprio pacote de salvaguardas.
Pelas regras da UE, o acordo precisa ser aprovado por países que representem, pelo menos, 65% da população do bloco. Por isso, a posição das nações mais populosas é crucial. Maior da Europa, com 83 milhões de pessoas, a Alemanha lidera o grupo favorável à integração com a América do Sul. Já a França, o segundo país mais povoado, com 69 milhões de habitantes, articula os opositores. Apesar do impasse, a Europa sabe que precisa de acesso a novos mercados. “O Mercosul é uma opção aos Estados Unidos de Donald Trump e à China”, diz Vinicius Vieira, professor de relações internacionais da Faap. Como os camponeses europeus demonstraram uma força desproporcional ao seu tamanho nas negociações, uma saída é contar com a pressão de outros segmentos da economia do Velho Mundo. “Os principais ganhadores do acordo são os produtos industriais europeus, que vão acessar o Mercosul”, disse a VEJA o diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero. Assim como no caso do tarifaço de Trump, em que a articulação das empresas americanas tem sido estratégica para retirar as sobretaxas aplicadas ao Brasil, contar com os setores econômicos europeus que ganharão com o acordo é o melhor caminho para encerrar, de vez, a novela que se estenderá em 2026.
Publicado em VEJA de 24 de dezembro de 2025, edição nº 2976