O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suspendeu nesta segunda-feira 22 as licenças de cinco grandes projetos de energia eólica offshore em construção na costa leste do país, alegando preocupações com a segurança nacional. A decisão provocou queda imediata nas ações de empresas do setor e aprofundou a incerteza em torno do futuro da energia renovável nos EUA.
Segundo o Departamento do Interior, a medida foi tomada após alertas do Departamento de Defesa de que o transporte de pás de turbinas de grandes dimensões e as torres altamente refletivas dos parques eólicos poderiam interferir em sistemas de radar, dificultando a identificação de ameaças militares. O governo afirmou que a suspensão é temporária e servirá para que agências federais, empresas e governos estaduais avaliem possíveis formas de mitigar os riscos apontados.
Foram afetados projetos estratégicos para a transição energética americana, como os parques Revolution Wind e Sunrise Wind, da dinamarquesa Orsted, o Vineyard Wind 1, desenvolvido pela Avangrid e pela Copenhagen Infrastructure Partners, o Coastal Virginia Offshore Wind, da Dominion Energy, e o Empire Wind 1, da norueguesa Equinor. Todos já estavam em fase avançada de construção.
O impacto no mercado foi imediato. As ações da Orsted caíram mais de 12% no mesmo dia, enquanto papéis de outras empresas envolvidas também registraram perdas. O setor já vinha sob pressão desde o início do novo mandato de Trump, marcado por uma postura abertamente hostil à energia eólica. Durante a campanha, o presidente prometeu acabar com a indústria de eólica offshore, classificando turbinas como caras, ineficientes e visualmente indesejáveis, além de retomar argumentos sobre impactos à fauna marinha.
Entidades do setor reagiram com críticas. A Associação Nacional da Indústria Oceânica, que representa desenvolvedores de energia eólica offshore, afirmou que todos os projetos atualmente em construção já haviam passado por avaliações rigorosas de segurança nacional, sem objeções formais do Departamento de Defesa. Para o grupo, a decisão cria insegurança regulatória e pode comprometer bilhões de dólares em investimentos já contratados.
Empresas também alertaram para efeitos colaterais da suspensão. A Dominion Energy afirmou que o atraso ameaça a confiabilidade do sistema elétrico da Virgínia, inclusive para bases militares e grandes centros de dados ligados ao desenvolvimento de inteligência artificial. Segundo a empresa, a energia gerada pelos parques seria fundamental para sustentar a expansão digital e industrial da região.
A decisão se insere em um movimento mais amplo de reversão da política climática dos Estados Unidos. Desde o início do novo governo, Trump tem acelerado a liberação de áreas para exploração de petróleo e gás offshore, ao mesmo tempo em que impõe entraves a projetos de energia renovável. Em novembro, o governo anunciou novos leilões de exploração de combustíveis fósseis, contrariando pressões de parlamentares democratas e de parte do setor privado.
Analistas avaliam que a suspensão dos parques eólicos tende a elevar custos no médio prazo, atrasar metas de redução de emissões e enfraquecer a competitividade dos Estados Unidos na corrida global por tecnologias limpas, liderada atualmente por China e União Europeia. O episódio também reforça a percepção de risco político para investidores em energia renovável no país, num momento em que grandes projetos exigem previsibilidade regulatória e compromissos de longo prazo.
Embora o governo sustente que a pausa é técnica e temporária, especialistas apontam que a decisão tem forte componente ideológico e sinaliza uma mudança estrutural na política energética americana, com prioridade clara para combustíveis fósseis e menor espaço para a expansão da energia eólica offshore nos próximos anos.