
O ouro e a prata atingiram patamares recordes nesta semana, impulsionados pela combinação de tensões geopolíticas crescentes e pela expectativa de novos cortes de juros nos Estados Unidos. O movimento consolida o melhor desempenho anual dos metais preciosos desde 1979 e reforça seu papel como ativos de proteção em um cenário global marcado por instabilidade política, endividamento elevado e incertezas sobre a política monetária americana.
O ouro chegou a ultrapassar a marca histórica de 4.400 dólares por onça, enquanto a prata se aproximou de 70 dólares, níveis inéditos no mercado internacional. Em 2025, o ouro acumula valorização superior a 65%, enquanto a prata e o platina também registram ganhos expressivos, refletindo tanto a busca por segurança quanto desequilíbrios de oferta em alguns mercados.
Parte relevante do rali está associada à expectativa de que o Federal Reserve promova ao menos dois cortes de juros ao longo de 2026. Dados recentes de inflação e emprego nos Estados Unidos vieram abaixo do esperado, reforçando apostas de uma política monetária mais frouxa. Juros mais baixos tendem a favorecer metais preciosos, que não oferecem rendimento, ao reduzir o custo de oportunidade para investidores.
A valorização também reflete o agravamento de tensões internacionais. O endurecimento da política americana contra a Venezuela, incluindo medidas que restringem exportações de petróleo, e episódios recentes ligados à guerra na Ucrânia, como ataques a navios associados à logística russa, ampliaram a percepção de risco geopolítico.
Soma-se a isso o discurso mais agressivo do governo Donald Trump em relação ao comércio internacional e à autonomia do banco central americano, fatores que aumentam a volatilidade nos mercados financeiros.
Além do componente conjuntural, há vetores estruturais sustentando os preços do ouro. Bancos centrais seguem ampliando reservas como forma de diversificar ativos e reduzir exposição ao dólar, tendência observada especialmente em economias emergentes.
Fundos negociados em bolsa lastreados em ouro voltaram a registrar entradas líquidas nas últimas semanas, e dados do Conselho Mundial do Ouro indicam aumento quase contínuo das posições ao longo do ano.
Investidores institucionais também têm migrado para o metal como parte da chamada estratégia de proteção contra a desvalorização monetária.
O aumento da dívida pública nas principais economias, aliado a déficits fiscais persistentes, tem estimulado a saída de títulos soberanos e moedas fiduciárias em favor de ativos considerados reserva de valor. Esse movimento ganhou força com a retórica do governo Trump em defesa de políticas fiscais expansionistas e juros mais baixos.
Outros metais acompanharam a alta. O paládio atingiu o maior nível em quase três anos, enquanto o platina superou os 2.000 dólares por onça pela primeira vez desde 2008, impulsionado por gargalos de oferta, redirecionamento de estoques para os Estados Unidos diante do risco de tarifas e aumento da demanda chinesa.
Para 2026, bancos e consultorias projetam continuidade do ciclo de valorização, ainda que com maior volatilidade. O Goldman Sachs, por exemplo, trabalha com um cenário-base próximo de 4.900 dólares por onça para o ouro, citando competição crescente entre bancos centrais e investidores por uma oferta física limitada. Analistas destacam, no entanto, que correções pontuais não estão descartadas caso o Federal Reserve mude o tom ou haja redução das tensões geopolíticas.