
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou nesta terça-feira, 16, que o plano para encerrar a guerra, mediado pelos Estados Unidos, está praticamente finalizado e poderá ser apresentado à Rússia “em dias”. A indicação vem depois de dois dias de negociações entre autoridades ucranianas e americanas em Berlim, durante os quais Washington declarou que “90% das questões difíceis” entre Kiev e Moscou haviam sido resolvidas. O líder russo, Vladimir Putin, porém, não deu nenhum sinal de que está pronto para fazer concessões.
Um dos pontos que ainda estava em suspenso eram as garantias de segurança que seriam dadas à Ucrânia no fim da guerra, para impedir uma potencial nova invasão no futuro. Nesta terça, Zelensky afirmou que o Congresso dos Estados Unidos vai colocar o pacote de propostas em votação e que um conjunto final de documentos seria preparado “hoje ou amanhã”. A importância da aprovação do Legislativo americano é tornar as garantias “juridicamente vinculativas” — ou seja, com força de lei para ser obrigatoriamente seguido pelas partes envolvidas; o não cumprimento dos termos resulta em consequências legais.
“Estamos contando com cinco documentos. Alguns deles dizem respeito a garantias de segurança: juridicamente vinculativas, ou seja, votadas e aprovadas pelo Congresso dos Estados Unidos”, disse ele a repórteres a caminho da Holanda, onde tem uma série de reuniões nesta terça. Ele afirmou que as garantias “espelhariam o artigo 5” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que conclama todos os membros a saírem em defesa de um dos aliados se atacado.
Depois disso, segundo Zelensky, Washington realizaria consultas com os russos, seguidas de reuniões de alto nível que poderiam ocorrer já neste fim de semana.
Garantias de segurança
Autoridades americanas não deram detalhes específicos sobre o que o pacote de segurança para a Ucrânia incluiria. Também não informaram o que aconteceria caso a Rússia tentasse tomar mais território ucraniano após a assinatura do acordo de paz. Confirmaram, no entanto, que os Estados Unidos não planejam enviar soldados a Kiev.
Líderes do Reino Unido, França, Alemanha e outros oito países europeus afirmaram em declaração conjunta que militares da chamada “coalizão dos dispostos” poderiam “auxiliar na regeneração das forças armadas da Ucrânia, na segurança do espaço aéreo ucraniano e no apoio a mares mais seguros, inclusive por meio de operações dentro da Ucrânia”. Contudo, não chegaram a sugerir que essas garantias corresponderiam ao artigo 5 da Otan.
Em todo caso, há poucos indícios de que a Rússia esteja disposta a concordar essas propostas. Nesta terça 16, o Kremlin afirmou não saber os detalhes sobre as garantias de segurança em discussão, e o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov, declarou que Moscou não concordaria com o envio de soldados da Otan à Ucrânia “sob nenhuma circunstância”.
Paz à vista?
O chanceler alemão, Friedrich Merz, afirmou na segunda-feira que a paz estava mais próxima do que em qualquer outro momento desde o início da guerra, em fevereiro de 2022. No entanto, nos bastidores, autoridades europeias reconhecem que, neste momento, o objetivo das negociações está mais conectado à manutenção do apoio de Trump à Ucrânia do que, de fato, fechar um acordo duradouro.
O principal ponto de discórdia entre a equipe ucraniana e os negociadores americanos continua sendo as concessões de terras. Trump quer que a Ucrânia abra mão das partes da região de Donbass que ainda controla, enquanto Kiev quer congelar as linhas de frente no atual ponto de contato. “Estamos discutindo a questão territorial. Como vocês sabem, é uma das questões-chave. Neste momento, ainda não há consenso sobre isso”, disse Zelensky após as negociações em Berlim.
A equipe dos Estados Unidos, liderada pelos enviados especiais de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, propôs uma solução de meio termo, na qual a Ucrânia deixaria o Donbass, mas a Rússia não avançaria. A área desocupada seria desmilitarizada se tornaria uma “zona econômica livre”.
“Quero enfatizar mais uma vez: uma ‘zona econômica livre’ não significa sob o controle da Rússia. Nem de jure, nem de facto reconheceremos Donbass como russa. Absolutamente não”, afirmou Zelensky, que recentemente deu o primeiro aceno verdadeiro à possibilidade de uma concessão territorial nesses termos, afirmando que levaria a questão a consulta popular em referendo.
Moscou, porém, ao falar sobre o tema, sugeriu que avançaria sobre a área, embora com formações policiais ou da guarda nacional, ao invés do Exército.