
O investimento na China desacelerou de forma acentuada em novembro e colocou o país à beira do primeiro recuo anual em mais de três décadas. O dado reforça a percepção de que a crise do setor imobiliário segue afetando o conjunto da economia chinesa.
Segundo o Escritório Nacional de Estatísticas, os investimentos em imóveis, infraestrutura e indústria recuaram 2,6% entre janeiro e novembro. Estimativas da consultoria Capital Economics indicam que, apenas em novembro, a queda foi de 11,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior, o segundo mês seguido de retração em dois dígitos.
Se confirmado no fechamento de 2025, será um marco histórico. Desde o fim dos anos 1980, período de rápida expansão econômica, a China sempre registrou crescimento anual do investimento em fábricas, obras públicas e construções.
A retração ganhou força no segundo semestre e sinaliza maior cautela de empresas e governos locais diante do enfraquecimento da economia.
Crise imobiliária puxa o freio
O investimento em imóveis, que por décadas foi um dos principais motores do crescimento chinês, continuou a cair de forma acentuada. Mas, desta vez, o problema não se restringe ao setor. Também houve queda nos investimentos em infraestrutura e na indústria, algo incomum na China.
A combinação reflete três fatores centrais: a crise prolongada do mercado imobiliário, que abalou a confiança de investidores; a perda de receita de governos locais, historicamente dependentes da venda de terrenos; e a tentativa de Pequim de conter a competição excessiva em setores industriais, o que tem adiado novos projetos e fábricas.
Para analistas, esse movimento mostra que os desequilíbrios da economia chinesa são mais amplos e difíceis de corrigir apenas com estímulos pontuais.
Consumo fraco e riscos financeiros
Outros indicadores divulgados reforçam o cenário de desaceleração. As vendas no varejo cresceram apenas 1,3% em novembro, o ritmo mais lento em quase três anos, indicando que o consumo das famílias segue fraco, apesar de sucessivas medidas de incentivo.
No setor imobiliário, a situação continua delicada. A Vanke, uma das maiores incorporadoras do país, não conseguiu aprovação para adiar o pagamento de títulos que venceram nesta semana, o que a aproxima de um possível calote. A empresa informou que ainda tem um prazo de carência de cinco dias úteis para tentar renegociar com credores.
Casos como o da Vanke se somam aos colapsos de outras gigantes do setor nos últimos anos, como Evergrande e Country Garden, e reforçam a visão de que a crise imobiliária está longe do fim.
Tentativa de reequilíbrio do modelo econômico
Autoridades chinesas afirmam que o investimento em áreas consideradas estratégicas, como energia limpa e tecnologias verdes, continua crescendo e pode sustentar o crescimento no médio e longo prazo. De fato, a China vem liderando globalmente a expansão de setores como carros elétricos, painéis solares e baterias.
Esse movimento está alinhado à estratégia de Pequim de reduzir a dependência do setor imobiliário e das grandes obras, apostando mais em indústria de alta tecnologia, exportações e transição energética. Ao mesmo tempo, o país acumula um superávit comercial recorde, próximo de US$ 1 trilhão, impulsionado pelas vendas externas.
Ainda assim, economistas avaliam que esse novo modelo não tem sido suficiente para compensar a fraqueza do mercado interno. O desafio para a China, agora, é estabilizar o investimento sem voltar ao padrão de endividamento excessivo que marcou ciclos anteriores de estímulo e que está na raiz da atual crise.