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“Esse toque só o Brasil tem”, admi­tiu o hitmaker espanhol Alejandro Sanz após ouvir Coração Partido, adaptação nacional de Corazón Partío, originalmente lançada em 1997. Nas mãos do grupo Menos É Mais, a faixa chegou ao público em agosto de 2024 e se tornou ouro: é a terceira canção mais ouvida por usuários brasileiros da plataforma em 2025 e também o primeiro pagode a encabeçar a principal parada do serviço. O fenômeno atesta que uma velha (e capciosa) tradição está de volta: as versões brasileiras de sucessos importados. Feitas por artistas locais no compasso da globalização, elas são abraçadas por expoentes de diversas vertentes. De tão prolífico, o filão pode parecer descomplicado — mas está longe de sê-lo. Para toda boa versão chiclete que chega à luz do dia, afinal, há também as traduções que passam vexame, além daquelas que nem se concretizam devido às negociações difíceis com os estrangeiros que são donos das canções.

TEMPERO BRASILEIRO - Grupo Menos É Mais e Alejandro Sanz: releitura escalou parada do Spotify em 2025 e rendeu frutos às duas partes
TEMPERO BRASILEIRO - Grupo Menos É Mais e Alejandro Sanz: releitura escalou parada do Spotify em 2025 e rendeu frutos às duas partes (Divulgação; Dia Dipasupil/Getty Images)

É desafiador delimitar uma origem exata para esse tipo de versão musical. A prática, porém, foi popularizada em meados do século XX, com a ascensão do rock’n’roll nas rádios. Celly Campello, por exemplo, fez carreira adaptando hits de cantoras e grupos americanos, de modo que é difícil encontrar algum brasileiro que prefira Stupid Cupid, de Connie Francis, ao clássico Estúpido Cupido. Pouco mais adiante, seu exemplo abriu portas para a Jovem Guarda estourar com devoção despudorada pelo que vinha de fora. De lá para cá, a prática entrou, saiu e entrou de novo na moda. Às vezes, com efeitos traumáticos. Na década de 1990, o Nenhum de Nós transformou Starman, de David Bowie, na medonha O Astronauta de Mármore, enquanto o Capital Inicial verteu um clássico de Iggy Pop na frugal O Passageiro. O vexame chegou ao ápice com Kiko Zambianchi assassinando Hey Jude, dos Beatles. No pop, Sandy & Junior e Wanessa Camargo fizeram uso das versões à exaustão. Não por acaso, a prática é vista na indústria não só como atalho para o sucesso, mas um modo de dar certa sofisticação importada à imagem dos intérpretes.

De fato, a familiaridade do público com uma melodia garante atenção. Nem sempre, contudo, a aposta é infalível. “É pouco provável que essas coisas sejam previsíveis”, atesta o experiente produtor João Marcello Bôscoli. E errar a mão pode ter preço alto. Primeiro, é preciso encarar uma maratona que passa pela negociação com a editora da música original, a análise da nova gravação e da tradução da letra para o português pelos compositores e produtores da faixa original. Claro que o porte do artista brasileiro e de sua gravadora ajuda a quebrar barreiras. Mas as estrelas gringas delimitam a divisão do lucro e podem até exigir retenção total da receita, sem deixar um tostão aos criadores da versão. Por fim, o retorno de fora pode levar meses e o pagamento pelos direitos pode chegar às dezenas de milhares de reais. A especialista em direitos autorais Bruna Campos conta que Pantera Cor-de-Rosa, da dupla Munhoz e Mariano, demorou quatro meses para ser aprovada e que a receita foi dividida em 50% para cada parte, os sertanejos nacionais e o espólio do compositor Henry Mancini. O Grupo Versão!, que repagina hits gringos com sonoridades locais, explica seu macete: a liberação é mais fácil quando a estrutura musical e as letras permanecem intactas. Em novembro, tocaram hits de Dua Lipa como pagode para a própria pop star, que estava em turnê no país. “Ela disse que adorou as versões. Ficamos em êxtase”, assegura Bebel Ferreira, cantora e percussionista do grupo.

CALEJADA - Adele (à esq.) e Paula Fernandes: após traduzir Taylor Swift e Lady Gaga, a sertaneja encara hit da musa inglesa
CALEJADA – Adele (à esq.) e Paula Fernandes: após traduzir Taylor Swift e Lady Gaga,
a sertaneja encara hit da musa inglesa (Gareth Cattermole/Getty Images; @OficialPaulaFernandes/Facebook)
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Hoje, é comum encontrar a prática no sertanejo. Paula Fernandes já adaptou Taylor Swift, Lady Gaga e ataca de Adele em single lançado há duas semanas. A primeira foi um sucesso, já a segunda virou piada devido ao refrão traduzido pela metade: “Juntos e shallow now”. A terceira, Amar de Novo, ainda não fez muito barulho. Quem tem se dado bem, por outro lado, é a dupla Zé Felipe e Ana Castela, muito menos fiéis ao material original. A partir da romântica You’re Still the One, de Shania Twain, o casal concebeu Sua Boca Mente, que acumulou 55 milhões de visualizações no YouTube em dois meses. A versão, curiosamente, é mais alinhada à sofrência daqui que à balada que fez sucesso nos EUA, assim como Coração Partido está longe do pop latino de Sanz. No feirão dos hits importados, fidelidade ao original é o de menos.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974



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