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A China precisa de energia, muita energia. Mesmo tendo construído a maior capacidade de geração elétrica de fontes renováveis do mundo, o país ainda é sedento também de combustíveis fósseis. Nada menos que 60% do aumento do consumo global de petróleo e gás natural nos últimos dez anos foi puxado pela China. Diante da disputa geopolítica com os Estados Unidos — que, além de ser um produtor relevante, tem o poder de fechar a torneira de exportadores por meio de sanções econômicas, como fez recentemente com a Rússia —, o governo de Pequim concluiu que precisa aumentar a sua autossuficiência em petróleo ou, pelo menos, encontrar fornecedores confiáveis. Um deles é o Brasil.

No intervalo de poucos anos, o setor petrolífero nacional sofreu uma invasão silenciosa de empresas chinesas. Em 2011, elas produziam apenas 5,5 milhões de barris por ano no Brasil, cerca de 0,7% do total. Essa participação cresceu mais de 1 000% e hoje responde por 5,3% de toda a produção de petróleo no país. Atuam por aqui as estatais chinesas CNPC, CNOOC e Sinopec, que, em 2024, participaram de operações que extraíram 65 milhões de barris de petróleo no Brasil, o equivalente a 178 000 barris por dia. É um volume que as coloca como a terceira maior força produtora do país, atrás apenas da Petrobras e da Shell — e, de maneira significativa, acima de todas as petroleiras independentes brasileiras somadas, como Prio, Enauta, 3R Petroleum e PetroReconcavo. “Esse movimento reflete o interesse da nação em diversificar suas fontes de petróleo e indica o Brasil como destino estratégico para o investimento estrangeiro em exploração e produção no Hemisfério Sul”, diz Daniel Oliveira, sócio e diretor de Óleo e Gás da consultoria Falconi.
Em 2024, um quarto dos 4,2 bilhões de dólares investidos pela China por aqui foi destinado ao segmento de petróleo e gás. Isso fez do Brasil o principal destino de capital chinês entre mercados emergentes e o terceiro maior no mundo. Só a CNOOC aportou 1 bilhão de dólares em projetos do setor no ano passado. E mais: em 2024, o petróleo superou a soja como principal produto de exportação brasileiro pela primeira vez desde 2012. Quase metade do volume teve como destino refinarias chinesas.
A lógica do avanço das estatais chinesas no petróleo brasileiro não é apenas empresarial. Essas companhias atendem aos critérios de segurança nacional definidos por Pequim. A China consome cerca de 16 milhões de barris por dia, mas produz pouco mais de 4,2 milhões, um déficit que obriga o país a garantir suprimento estável no exterior. Nesse contexto, CNPC, CNOOC e Sinopec dispõem de uma flexibilidade rara: por serem estatais, não vivem sob a pressão de acionistas em busca de dividendos, atendem apenas aos objetivos de longo prazo do governo de Pequim. “Elas trabalham com horizontes de décadas e podem assumir riscos que as empresas privadas evitam, investindo de forma agressiva sempre que identificam valor estratégico”, diz David Zylbersztajn, ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo e sócio-diretor da DZ Negócios com Energia.
É essa diferença de incentivos, explica Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, que alimenta a percepção de concorrência desigual nos Estados Unidos. “Dinheiro não tem pátria: ele vai aonde encontra boas condições. Mas o governo brasileiro precisa entender que a lógica chinesa é distinta da americana. É fundamental evitar dependência excessiva do capital chinês”, diz o especialista. O Brasil não corre risco de perder soberania sobre o setor: a Petrobras ainda responde por mais de 70% da produção nacional e segue definindo o ritmo da indústria. A China não determina o que e como o Brasil produz, mas determina, cada vez mais, o quanto isso vale.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974