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Na década de 1960, Manuel Bandeira (1886-1968) já havia revolucionado a poesia brasileira com seus versos modernistas e transmitia seu legado como professor de literatura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Foi lá, aos 77 anos, que conheceu a jovem paraense Luci Lourdes Soares, de 26 anos, por quem se encantou. A relação de “alumbramento”, que não chegou a se converter em romance consumado, rendeu poemas e bilhetes apaixonados e é detalhada em um ensaio inédito da reedição do cultuado A Trinca do Curvelo: os Afetos de Manuel Bandeira. O livro de ensaios sobre o autor dedica espaço especial também à holandesa Frédy Blank, a “grande querida” — e mulher casada —, com quem ele manteve relacionamento peculiar, mas dedicado, por mais de quarenta anos. “Bandeira sempre foi ferozmente discreto, como cunhou Augusto Frederico Schmidt. Há estudos sobre a presença de mulheres na poesia dele através de entrevistas em que ele insinuava, sempre sem ser claro, a presença feminina. O que fiz foi identificá-las e levantar uma suspeita mais forte dessa presença em poemas específicos”, explicou a VEJA a autora e pesquisadora Elvia Bezerra.
Diagnosticado com tuberculose aos 18 anos, Bandeira acreditava que morreria cedo e nunca se casou. Suas paixões, porém, ganharam visibilidade nos últimos anos, por meio de correspondências que sugerem que o escritor tinha vida amorosa mais agitada do que deixava transparecer. Além de Blank, ele teve outros relacionamentos concomitantes: ficou por quase trinta anos com a enfermeira Dulce Ferreira Pontes e, entre 1957 e 1968, manteve um affair simultâneo com Lourdes de Souza, única com a qual viveu sob o mesmo teto, já no final da vida. Mais recentemente, cartas trocadas com a alemã Gertrud Bühler também expuseram uma relação até então desconhecida entre eles. Não à toa, o livro aponta que Bandeira cultivou a solteirice enquanto nutria uniões quase matrimoniais, “sendo moderno também na forma de viver”.

Apesar disso, sua circunspecção quase religiosa criou uma imagem de lobo solitário que contrasta com a de outros dois baluartes masculinos da literatura modernista. Oswald de Andrade (1890-1954) protagonizou um escândalo ao trocar Tarsila do Amaral (1886-1973) por Pagu (1910-1962), com quem se casou numa excêntrica cerimônia no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Ambas, inclusive, tiveram grande impacto em sua carreira: foi ao lado de Tarsila que o escritor fundou o disruptivo Movimento Antropofágico, enquanto lançou com Pagu o famoso jornal O Homem do Povo. Outra cabeça do modernismo, Mário de Andrade (1883-1945) sofreu durante toda a vida com especulações sobre sua sexualidade e nunca chegou a se assumir publicamente por temer represálias. Nas últimas décadas, com a revelação de cartas que iluminavam seus amores masculinos, a obra do autor passou a ser analisada sob outra perspectiva, ganhando inclusive uma mostra especial no Masp, em 2025, com ênfase no lado queer de sua produção.

Foi com base em correspondências, entrevistas e materiais de arquivos também que Elvia teve acesso a novos detalhes da vida amorosa de Bandeira. Lançado originalmente em 1995, A Trinca do Curvelo se debruça sobre o cotidiano do escritor, com foco no período em que ele morou na rua que dá título à obra, no bairro carioca de Santa Teresa. Trinta anos depois, a reedição recheia os ensaios originais com novos detalhes do dia a dia de Bandeira. Na segunda parte do livro, totalmente inédita, Luci e Blank ganham destaque, mas o comedimento era tanto que nem sequer há fotos do escritor com elas: sabe-se que a primeira era magra, de estatura mediana e cabelo castanho-escuro muito liso, fruto da herança indígena, enquanto a segunda era branca, loira e com seios pouco volumosos. Para elas foram escritos poemas singelos: a obra atribui a Luci a inspiração de O Fauno, que compartilha parte dos versos com o até então inédito Lucilourdes: “Ó desejada que ainda não sabes que és desejada!”, diz um trecho em comum dos dois poemas. Já para Blank é atribuído, entre outros, Natal 64, escrito no ano da morte da holandesa. “Então, por que neste momento/ Me sinto tão amargo assim?/ E a saudade me é um tal tormento,/ Se estás viva dentro de mim?”, lamenta. O amante modernista era discreto — mas às vezes dava bandeira.
Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2025, edição nº 2974