
A mais recente pesquisa Datafolha, publicada neste sábado, 6, sacramentou algo que muitos no centrão e até no próprio bolsonarismo já vinham sussurrando: a escolha de Flávio Bolsonaro como candidato do clã parece mais simbólica — para preservar a hegemonia do sobrenome na direita — do que competitiva.
Segundo o levantamento, em um eventual segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio registra apenas 36% contra 51% do petista — uma diferença de 15 pontos. Na rodada anterior, essa margem era de 11 pontos (48% a 37%). Ou seja: enquanto Flávio não avança, Lula abre vantagem.
Se os números já colocavam em dúvida o “risco Flávio”, agora revelam algo maior: um teto estruturado — difícil de superar. Outros nomes do campo conservador ou bolsonarista apresentam desempenho mais competitivo. Em simulações contra Lula, Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. ficam a apenas 5 ou 6 pontos do presidente.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também aparece numericamente à frente de Flávio: 39% a 50% em um eventual segundo turno contra Lula.
É esse cenário que expõe, de forma mais cristalina, o dilema fundamental do clã Bolsonaro: manter o protagonismo não basta. Quando a escolha para 2026 recai sobre o nome mais visível da família, o eleitorado — entre ceticismo, rejeição à polarização e fadiga com o bolsonarismo — migra para alternativas que soam mais moderadas ou viáveis.
Se, como mostrou a coluna de ontem, a decisão de empurrar Flávio como candidato representava uma aposta na “marca Bolsonaro”, agora essa aposta se revela de alto risco. Sim, em dez meses tudo pode mudar. Mas, hoje, a matemática não ajuda.
Para os partidos do centrão, que viram a escolha irritar setores pragmáticos da direita, os números reforçam a tese de que seria mais eficiente negociar com governadores focados em governabilidade e com menor risco de rejeição.
Para o eleitor que busca alternância sem retorno à guerra política, o Datafolha funciona como alerta: há caminhos mais competitivos — e menos traumáticos — para reconstruir a direita do que simplesmente repetir o passado.